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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Maria Rita se emociona ao falar da aproximação com a obra da mãe

G1 - Globo News

Filha de Elis Regina e de Cesar Camargo Mariano iniciou a carreira aos 24 anos, apesar de querer cantar desde os 14.


Em entrevista a Roberto D’Avila para a GloboNews, Maria Rita, uma das melhores e mais refinadas cantoras do Brasil, se emocionou ao falar da reaproximação dela com a obra da mãe, Elis Regina. A cantora iniciou a carreira aos 24 anos, apesar de querer cantar desde os 14.
Filha de uma das maiores cantoras do Brasil e de Cesar Camargo Mariano, um dos melhores pianistas e arranjadores da atualidade, Maria Rita revela que existia uma cobrança de que ela deveria cantar desde nova e, aos 19 anos, se rebelou, dizendo que não cantaria. “Minha rebeldia tinha um elemento a mais, porque minha mãe ainda é muito querida, muito amada”, conta. Ela comentou a grande dificuldade de lidar com a perda da mãe tão nova – Maria Rita tinha 4 anos quando Elis morreu – e que não tem nenhuma lembrança da mãe. “O trauma da perda brusca deletou muita coisa. É uma cicatriz aberta, eu me acostumei com ela. Tem momentos que eu sinto mais”, acrescenta.

Maria Rita se emocionou ao falar da aproximação com a obra de Elis com o álbum “Redescobrir”. “Foi muito bonito, importante e positivo trazer minha mãe pra dentro de casa de novo. Quando eu começo a cantar profissionalmente e vem essa avalanche de cobranças e de broncas, brigas, ameaças, toda essa sombra que veio junto, eu perco a minha mãe de novo. Eu tomo a decisão consciente de não tê-la mais perto de mim. E esse projeto me permitiu trazê-la de volta”, declara.

Depois de um ano e meio de turnê, ela revela ter passado a sofrer de novo. “Era hora de tornar aquilo meu de novo. Não sei se quero dividir isso de novo tanto mais. Mas não vou dizer nunca. Porque amanhã eu posso sentir que esse é meu papel. Hoje, como filha, meu papel é cuidar dela. E a melhor forma de cuidar dela é manter o nome dela vivo. É mantê-la viva no palco maior dela, que é o coração das pessoas”, afirma.

Maria Rita disse ainda que, sem a música, não sobreviveria, não seria plena e feliz. “A música é o motivo de eu ter vindo a esse mundo. Minha mãe começou a entrar em trabalho de parto no palco, aos 7 meses de gravidez. A música traduz o que eu sou, seja no palco, seja no dia a dia. A música ultrapassa o papel de ser trilha sonora para as minhas experiências. E explica tudo o que eu sou desde sempre”, finaliza.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

"Este lugar é meu, entende?"

A Critica de Campo Grande MS

Sexta, 13 de Junho de 2014 - 12:02
Fonte: Valor Econômico
Foto: Reprodução / Valor


Cantora deu entrevista durante almoço

São 3 da tarde, hora de encerrar o expediente na cozinha do Dalva e Dito. Para garantir comida à mesa, os pedidos foram feitos antes de Maria Rita chegar. Por telefone, a cantora informou o que queria para o almoço: surubim com folhas de jambu, "uma erva elétrica" - como está no cardápio. É assim que ela entra no restaurante. "Estou pilhadíssima. Acordei de ansiedade, bem antes do despertador. Às 6 da manhã eu já estava ó" - diz, escancarando os olhos miúdos atrás dos óculos. Está absolutamente envolvida com os detalhes da turnê do show "Coração a Batucar", que já passou por São Paulo, Rio e segue para Santos, Curitiba, Recife, entre outras cidades.

Ao entrar no salão, Maria Rita avista o músico Max de Castro, filho do cantor Wilson Simonal, e vai cumprimentá-lo. Depois de dois dedos de prosa com o amigo de infância, junta-se a nós. Coloca na cadeira a bolsa azul, no mesmo tom da cerâmica da parede. E "Coração a Batucar" volta à conversa. É ela quem assina a direção do show. "Não consigo dar na mão de outra pessoa, sou bem centralizadora", admite, beliscando um pedaço de pão.

Caxias em tudo o que faz, costuma chegar com cinco horas de antecedência para seus shows. Som, luzes, figurino e maquiagem ticados, é hora de reunir os músicos na coxia. Todos se abraçam em um círculo e ela comanda uma exortação ao sucesso, seguida de um grito que serve para "tacar os demônios pra fora". Para demonstrar o que diz, solta algo como um urro. Antes de levar um pedaço de pão à boca, completa: "Ah, e só entro no palco com o pé direito".

Nem bem começamos a saborear o couvert, o garçom aparece com a comida. O assunto volta no tempo. Filha de Elis Regina e Cesar Camargo Mariano, seria natural que a menina sonhasse em seguir a carreira dos pais. Certo? Errado. Justamente por ser filha de quem é, fugiu da sina. "O lance era o seguinte: minha mãe morreu no auge, de uma forma inesperada, virou um mito. Era muito complicado, desde que me lembro por gente, ser filha da Elis. As pessoas me paravam na rua. Era uma comoção que me incomodava."

Quando Elis morreu, Maria Rita tinha 4 anos. "Não tenho memória da minha mãe." Isso, para ela, tornava a semelhança entre as duas ainda mais enigmática. O pai costumava dizer: "Não entendo. É genética ou o quê? Como você é tão parecida com sua mãe, o gestual, a risada, o jeito de mexer no cabelo, se não conviveu tempo suficiente?" Acho que ele tinha um sentimento de que aquilo seria um sofrimento para mim, como veio a ser."

Interrompe a fala, abaixa a cabeça para o prato, volta, encara a repórter e pergunta: "Cara, como a gente vai fazer pra comer? Não se pode falar de boca cheia". E cai na risada. Depois de abocanhar a primeira garfada de peixe, diz que evitava cantar em público, mas banheiro era território livre. Pegava a escova de cabelo, "daquelas grandonas e achatadas", que fazia as vezes de microfone, e soltava a voz na frente do espelho. "Mas eu não dividia. Isso era só meu, ninguém sabia."

Durante anos, foi a única menina e a caçula entre os irmãos. João Bôscoli, produtor musical, e Pedro Mariano, cantor, davam-lhe sopapos, puxavam a irmã pelos pés e a persuadiam a jogar futebol de botão com eles. A pequena topava entrar na brincadeira, contanto que depois fizessem o gosto dela. "Mas claaaro", prometiam com os dedos cruzados. "Eles foram meus terrores. Mas superprotetores, ninguém chegava perto de mim." E, servindo-se de arroz, comenta, rindo: "Nem namorado".

Camargo Mariano tinha estúdio em casa, sempre que possível com vista para um jardim. Com um metrônomo marcando o compasso, passava horas compondo. "Quantas vezes eu não fiz o dever de casa no chão, quietinha pra não atrapalhar... Ouvia, inebriada." O pai, continua, sempre foi um sujeito empetecado e perfumado. Detalhista, carrega e passa a própria roupa que usa nos shows, desenha os cenários, cumprimenta do dono ao faxineiro do teatro. "Sou baba-ovo mesmo." Garota ainda, já acompanhava o pai ao trabalho, observava a passagem de som. Para que a filha não atrapalhasse, ele pedia que checasse se havia frutas no camarim ou contasse o número de cadeiras na plateia. "Preciso muito saber", dizia. "Eu me sentia tão importante..."

Em 1994, Camargo Mariano decidiu morar nos Estados Unidos, em Nova Jersey. Os irmãos, que já "eram donos do próprio nariz", ficaram no Brasil. Maria Rita, com 16 anos, foi junto. "Eu era muito ligada nos meus irmãos, foi difícil." Na escola, os alunos juravam à bandeira americana todas as manhãs, em pé e com a mão no peito. Menos Maria Rita. "A bandeira é sua, não é minha. Não vou jurar", conta, rindo. Pinga um pouco de pimenta na comida e de Pimentinha - apelido de Elis - na conversa. Uma das grandes vantagens de morar fora era que lá ninguém dava a mínima por ela ser filha de uma das maiores cantoras do Brasil. "Quem, Elis? Ah, tá. Não conheço", diziam seus colegas.

Estava tudo muito tranquilo até o dia em que Camargo Mariano convidou a filha para cantar com ele. Havia um grupo de amigos brasileiros em casa e a canção pedida foi "O Bêbado e a Equilibrista". Maria Rita fechou os olhos, como faz até hoje ao cantar, e soltou a voz. Quando os abriu, viu a sala tomada pela emoção. Era um tal de gente chorando, de olhos vermelhos e inchados. Maria Rita, com 19 anos, achou aquilo um disparate. Um dos presentes, o cantor sertanejo Chitãozinho, visivelmente comovido, aconselhou: "Você tem que cantar, menina". Ela olhou bem nos olhos dele e deu seu recado: "Escute. Minha mãe morreu e não volta mais". Deu as costas e saiu. "Aí rolou uma quebra geral no clima." Mais tarde, durante o jantar daquela noite, Chitãozinho - "pra quem eu fiz a malcriação" - chamou-a a um canto: "Olha, eu não chorei porque você se parece com sua mãe. Chorei porque desde que Elis morreu achei que nunca mais fosse sentir uma emoção como essa. E senti".

"Nunca esqueci o que ele me disse, ficou guardado. Foi lindo." Tudo muito bom agora, porque na época a comoção suscitou um descompasso. Maria Rita calou-se. Decidiu cursar comunicação social e estudos latino-americanos. "Aí me mudo para Manhattan e começo a viver minha vida", diz, largando os talheres no prato, apoiando os braços na mesa e abrindo as mãos no ar. Hoje, depois de anos de análise, entende que sua escolha foi uma maneira de se manter "abaixo do radar da geral". "Honestamente, era uma negação comigo mesma. Sempre fugindo." Pega de volta os talheres, dá uma garfada no peixe e prossegue.

Evitou, quanto pôde, cantar em público. Mas no banheiro, limpando vidros e passando aspirador, esquecia a promessa de se manter calada. Um amigo, que sempre a ouvia cantando do corredor, inscreveu-a em um concurso de calouros. Na hora H, Maria Rita entrou em pânico. "O que estou fazendo aqui? Meu Deus do céu, deu defeito na pessoa. Aí vaaaazooooou", lembra-se, puxando as vogais e risadas da audiência.

Fugiu para uma padaria das redondezas, até ser encontrada pelos amigos, que já estavam doidos atrás dela. "Eu estava toda tensa e falei: 'Vocês por acaso sabem a importância que isso tem pra mim?' Uma das amigas fez que sim e a convenceu a encarar o desafio. A turma prometeu ficar na retaguarda, para qualquer emergência. Lá foi ela, encarar a plateia e seus fantasmas. Subiu no palco sozinha, dispensou microfone - "eu não sabia usar aquele treco" - e cantou a capela. Abocanhou o primeiro lugar e US$ 100 para serem gastos em CDs. Qual era a música? "Velha Roupa Colorida", de Belchior: "(...) Você não sente e não vê/ mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo,/ que uma nova mudança, em breve, vai acontecer (…)".

A mudança estava à espreita. O ano era 2001. Setembro. Seu aniversário, dia 9. No dia 10, celebrou em um show de Michael Jackson. No dia 11, a notícia do ataque terroristaàs torres gêmeas de Nova York. "Minha cabeça entrou num processo de salvação automática muito louca de 'vou voltar para o Brasil'." E assim fez. Retornou ao solo pátrio e entregou-se à profissão que tanto evitou.

"Eu tinha que passar por essas turbulências todas. Foi um processo solitário, doloroso e de muitas dúvidas. Batalhei sozinha com meus demônios pra me encontrar. Só eu sei o que passei pra chegar a este lugar. Então esse lugar é meu", afirma, enfatizando o pronome possessivo e olhando nos olhos da repórter. "É meu, entende? Minha batalha não era em cima do palco como muitos artistas. Era na sombra, na coxia, de mim comigo mesma."

O celular toca. Maria Rita passa o aparelho para Alan, seu assistente, que almoça conosco, e perde o fio da meada. "Onde eu estava mesmo?" Sua estreia foi no minúsculo palco do Supremo Musical, em São Paulo, ao lado de Chico Pinheiro e Luciana Alves. Logo começaram a pipocar pedidos de entrevistas e propostas de shows. Declinou de todos, melhor não colocar a carroça na frente dos bois. Gravou, então, o primeiro CD, recusando a gravadora do irmão, a participação do pai e evitando o repertório da mãe. "Não juntei família, fui procurar minha turma. Existia um mau-olhado com a filha da Elis, não podia dar esse mole, sabe?"

Na sua turma estava o produtor Tom Capone, que sabia tirar o melhor de sua voz. "Maria - diz imitando o amigo -, com você a gente não pode fazer muito 'take', tem que ser no máximo no terceiro, senão fica muito pensado'." Arruma um montinho de comida no garfo, faz uma pausa e relembra, saudosa: "Ele tinha sensibilidade, entendia que comigo era na explosão ou não ficava legal".

Com o primeiro CD Maria Rita ganhou dois Grammys Latinos, nas categorias de melhor disco de MPB e de artista revelação. Quando ouviu seu nome, na premiação em Los Angeles, ficou "atordoada". "O Tom me levantou no colo, eu chorava muito. Explodi de tudo que tinha acontecido comigo até aquele momento." De lá foram para uma festa que a gravadora tinha armado para comemorar, no hotel onde estava hospedada. Maria Rita celebrou e logo voltou para seu quarto, sem provar o bolo. Capone foi levar um pedaço para a vencedora. "Foi a última vez que vi o Tom." Naquela noite, a caminho de outra festa, ele sofreu um acidente de moto e morreu. "Foi uma noite de emoção, do céu ao inferno em muito pouco tempo. Foi doído. Ficou difícil." Maria Rita abandona os talheres, junta as mãos e chora.

A esta altura, só estamos nós e os funcionários no restaurante. Mexendo na pulseira do relógio, e já refeita, ela conta que procurou Lenine para produzir seu segundo CD. Ligou para fazer o convite, mas, assim que ouviu a voz do músico, desligou, de nervoso. "É um cara que respeito demais." Mal o CD foi lançado, surgiu "o escândalo do iPod", ela rememora. A revista "Veja" publicou, na ocasião, que a gravadora Warner havia tentado corromper jornalistas com um aparelho, distribuído como parte da estratégia de lançamento daquele seu trabalho. O aparelho, dizia o texto, com o título "O mensalinho de Maria Rita", teria sido oferecido para a artista obter espaço em jornais e revistas.

"Quase derrubou o disco. Tinha gente que dizia: 'Quem pode pode, quem não pode que iPod'. Outros diziam que o artista não tem nada a ver com o marketing." Foi consultada sobre o plano de divulgação da gravadora? "Eu estava lá mixando, indo para a masterização. E eles, 'ah, a gente vai embarcar no iPod'. E eu, 'ah, tá bom. Dá um pra mim?'" Faz uma pausa, espeta um pedaço de peixe e prossegue: "E eu estou aqui". Como quem canta, debocha: "Ha, ha, ha, vai ter que me aturar."

O garçom leva os pratos e Maria Rita traz, novamente, a mãe para a conversa. Quando começou a cantar, alguns "órfãos de Elis" a acusavam de querer usurpar o lugar da maior cantora do Brasil. "Isso me tirava do prumo. Nunca quis ser a substituta da Elis. Sou filha que não teve mãe, para de encher." Como defesa, decide "não ter mais nenhum contato" com a mãe. "É uma série de reações, no emocional, que leva um tempo pra trabalhar, pra entender."

Quando completou dez anos de carreira, e bem mais segura de seu lugar, fez "Redescobrir", em que revisitou - em shows, CD e DVD - clássicos de Elis. "Aí fui tentar entender minha história e essa mulher incrível que é minha mãe. Aí ela voltou pra minha vida, meu colo."

Mas não foi mole. Um dia, depois de ouvir um monte de CDs de Elis, encostou na janela, descorçoada. "Bicho, o que fui fazer? A missão é hercúlea. Ela é excelência na música. Melhor pular fora." Olhou para a frente e deu de cara com a foto de Elis, que estampa a capa de um livro, mostrando a língua para ela, feito o conhecido retrato de Einstein. Maria Rita lembrou-se, então, de uma entrevista que viu da mãe. Quando indagada sobre o que desejava para a filha, Elis teria dito: "Que ela seja leve, nunca pesada." Reação imediata: "É isso aí, genial, mãe, continua tirando sarro da minha cara. Não é pra se levar tão a sério, exatamente. Não é pra ficar pesada. Mãe, valeu". Fala rindo e, puxando a manga da camiseta para cima, deixa algumas de suas muitas tatuagens à vista.

"Me dá um autógrafo", brinca Alex Atala, que acaba de chegar ao restaurante. Cantora e chef trocam algumas palavras, ele pergunta se está tudo bem conosco e vai para o salão de baixo participar de uma reunião.

Dispensamos a sobremesa. Já sorvendo o café, Maria Rita conta que "deu um nó na garganta" na primeira vez em que ouviu "Mãinha Me Ensinou". A canção, de Arlindo Cruz e Xande de Pilares, que faz parte do álbum "Coração a Batucar", não foi composta para ela, mas parece talhada para a cantora.

"Não tenho como não me identificar. As duas primeiras tomadas da gravação fiz aos prantos, não consegui terminar. É um retrato de um momento da minha vida, muito forte, em que trago de volta minha mãe, com seus ensinamentos, através da música. E também, como diz a canção, em que vivo um grande amor" - com o músico Davi Moraes, pai de Alice, sua filha caçula. Com a xícara de café na mão, cantarola: "Ainda me lembro com clareza/ O que mãinha me ensinou... Ah! Encontrei um amor assim/ é tudo o que sonhei pra mim..."

Dá um gole de café e conta que ser mãe não fazia parte de seus planos. "Como ser uma coisa que nunca tive? Como é que faço? Eu pensava assim." Hoje, Maria Rita tem dois filhos. Antônio, de 10 anos - de seu relacionamento com o diretor Marcus Baldini -, e Alice. " E, olha, estou fazendo direitinho o negócio", diz, com uma gargalhada.

A conversa é interrompida por um cantarolar em voz alta. É um personagem da rua, uma das lendas vivas do bairro, informa Maria Rita, ex-moradora dos Jardins, que há sete anos trocou São Paulo pelas praias cariocas. Já está escuro e ela volta ainda à noite para o Rio. De carro. "Menina, passagem de avião está uma loucura de cara!"

Ela está com 36 anos, a idade que Elis Regina tinha quando morreu. "Até aqui eu sei o que ela tinha feito, vivido, se tinha mudado ou não, cortado o cabelo, como estava. Daqui pra frente não sei nada, estou sozinha. Agora sou eu e eu mesma."

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Maria Rita diz que deixou de ser 'bunda mole' após cantar Elis Regina

G1

Cantora resgatou 'indignação' ao cantar repertório com teor social da mãe.

Após homenagem, ela faz CD de samba para 'fazer pensar' e canta em SP.

Rodrigo Ortega
Do G1, em São Paulo

Maria Rita (Foto: Divulgação / Vicente de Paulo)

Após fazer uma turnê com o repertório de Elis Regina, a filha Maria Rita lança o disco de samba "Coração a batucar". O novo trabalho é emotivo e, às vezes, indignado. É o caso de "Saco cheio" e "Fogo no paiol", faixas do álbum com certo questionamento social. O novo CD não tem faixas de Elis, mas mostra o impacto da homenagem na cantora.

Ela leva a turnê do disco "Coração a batucar" a São Paulo, na sexta-feira (23), no Citibank Hall. A cantora repete a apresentação no sábado (24). Nos dias 30 e 31 de abril é a vez de o Rio ver a nova turnê de Maria Rita, no Citibank Hall carioca.

"[A turnê anterior] mostrou que preciso resgatar uma 'Maria Rita indignada e socialmente consciente' que eu já fui, e hoje eu sou uma bunda mole", diz a cantora. "[O lado crítico] não estava esquecido, estava com medo. Porque percebo que a gente vive um momento, enquanto artista, que se falar alguma coisa parece babaca, chato. Parece que as pessoas não querem ouvir. Mas acredito que a função do artista é falar, fazer pensar", defende.

Nos shows passados, com repertório da mãe, ela afinou o tom questionador ao retrabalhar "Como nossos pais", "Alô alô marciano" e "Morro velho" e outras. "Não é possível que eu, com 20 anos na faculdade, era mais envolvida que hoje. Agora eu tenho um nome, eu devo fazer mais, devo servir de exemplo. Eu chego lá, vou amadurecer isso", diz.
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G1 – Como foi trabalhar com o seu marido, Davi Moraes, como guitarrista?
Maria Rita – Ele tem experiência, antes de me conhecer, de trabalhar com família. O pai [Moraes Moreira] o colocou no palco com oito anos. Também trabalhei com minha mãe desde nova, no sentido de consulta [sobre o legado]. Vi que precisava desligar a chave filha e ligar a chave herdeira. Elis é de todo mundo, mas a mãe é minha. Com o Davi, é da mesma forma. No palco, é da minha equipe, tratado de igual para igual. Desce e vira marido, não tem drama.
A primeira vez que coloquei guitarra no meu show foi no "Redescobrir". Tinha que ser ele, um grande músico. Tem uma bagagem, toca guitarra como violão, cavaquinho. E é sedutor. A primeira vez que o vi, estava na turnê do Caetano. Fiquei embasbacada. "De onde surgiu esse moleque?", pensei. A admiração foi ali. Ele me convidou para o programa no Multishow. Mostrou músicas e eu botei no "Elo". Nesse movimento de pedir autorização, rolou a paixão.

G1 – Seu filho de nove anos também gravou em 'Vai meu samba'. Como foi?
Maria Rita – Antônio é um cara muito legal. Desperta amor onde vai. Não é diferente com a banda. Os caras gostam dele. Em um momento de pausa para o café, ele estava brincando com instrumentos. Virou uma brincadeira com o tamborim. Ele olhou para mim, pois sabe que sou "mãe leoa". Pensei: "O pior que pode acontecer é ter que refazer". Mas ele arrasou, foi super profissional, depois foi negociar o cachê (risos).

Maria Rita (Foto: Divulgação / Vicente de Paulo)

G1 – É o primeiro disco depois da turnê com as músicas da sua mãe. Como essa turnê te afetou como artista?
Maria Rita – Mexeu muito comigo. Primeiro enquanto intérprete, pois é como se tivesse um carimbo de excelência. São 29 músicas de um repertório que beira a perfeição. Não falo como filha, mas como intérprete. Minha mãe é musa inspiradora no mundo inteiro. Ter cantado - e sei que fiz direito e passei emoção e verdade - é carimbo de excelência. Eu era filha, e isso seria perigoso. Desde extensão vocal a dificuldade harmônica e de letra, me mostrou muito da minha capacidade. Brinco mais com minha voz, vou além do que ia antes.
Como ser humano, me mostrou a generosidade com o que público me recebeu e me deu colo quando eu chorava no palco. E mostrou que eu preciso resgatar uma "Maria Rita indignada e socialmente consciente" que eu já fui, e hoje eu sou uma bunda mole.

G1 – Eu ia perguntar sobre isso, já que neste disco novo há músicas com este teor social, como 'Saco cheio' e 'Fogo no paiol'.
Maria Rita – Essas letras são uma forma de tocar no assunto sem ser muito pesado. As duas músicas do Gonzaguinha na versão do iTunes são mais escancaradas, com a voz rasgada. A consciência de que devo deixar de ter medo dessa característica vem do show "Redescobrir". Eu já tinha isso. No segundo disco gravei "Minha alma". No "Samba meu" tinha "Corpicho", que tira um sarro dessa coisa superficial. É uma crítica social.

"Acredito que a função do artista é falar, fazer pensar"
Maria Rita

G1 – Então esse lado crítico existia, mas estava esquecido?
Maria Rita – Não estava esquecido, estava com medo. Porque eu percebo que a gente vive um momento, enquanto artista, que se falar alguma coisa parece babaca, chato. Parece que as pessoas não querem ouvir. Mas acredito que a função do artista é falar, fazer pensar. Eu tenho isso latente em mim. Não é possível que eu, com 15, 20 anos na faculdade, era mais envolvida do que hoje. Agora eu tenho um nome, eu devo fazer mais, devo servir de exemplo. Eu chego lá, vou amadurecer isso (risos).

G1 – 'Mainha me ensinou' foi escolhida pela sua história?
Maria Rita – Essa chegou do Xande [de Pilares]. Não foi escrita para mim, não sei qual é a história. Mas identifiquei alguns ensinamentos dessa "mainha" da música: respeitar a natureza, andar no bom caminho, se entregar a um grande amor. São lições que a minha mãe teria passado para mim. E tem "encontrei um amor" e "hoje eu sou mainha também" na letra [Maria Rita é mãe de Antônio, 9 anos e Alice, 1 ano]. Então essa música tomou um tom absolutamente pessoal. Foi até difícil gravar, eu chorava muito na gravação. Chorava, parava, chorava muito. Tenho até ansiedade de saber como vou me portar no palco diante da multidão. Provavelmente vou chorar também.


"Foi até difícil gravar ['Mainha me ensinou']. Eu chorava muito na gravação. Chorava, parava, chorava muito. Tenho até ansiedade de saber como vou me portar no palco diante da multidão. Provavelmente vou chorar também."
Maria Rita, cantora


G1 – Tem a famosa interpretação de 'Atrás da porta' em que sua mãe chora. Você se lembra de ver isso em vídeo?
Maria Rita – É muito forte aquilo. Vi em vídeo sim. Fiquei muito impressionada. Na gravação ela estava brigada com meu pai. Quando canta vem aquilo tudo à tona. Tenta esconder, joga o cabelo, a mão, aquele choro de rímel caindo... É fortíssimo, bonito, sofrido. Bonito porque me emociono quando vejo o artista que se envolve a tal ponto, que ele muda. Tenho respeito pelo artista que na coxia é uma coisa e no palco outra. E aí que tenho certeza que música mexe com ele. Quando vi, sabendo da história, pensei: "O que foi que meu pai aprontou para ela estar desse jeito?" (risos).

G1 – A ideia de, nesse CD, preferir emoção a perfeição técnica tem influência de Elis?
Maria Rita – O Milton Nascimento, no início da minha carreira, disse que eu sou "da mesma forma da minha mãe". Eu não lembro, sei que ela é assim e eu também. Sou muito reta. Não sei mentir, se minto me atrapalho toda, me pegam em dois minutos. Não é proposital. Não tem a ver com alguma lembrança. Só posso dizer da minha verdade. Quando estou no palco, a música mexe muito comigo, sou um bicho muito movido aos sentidos. Já chorei em frente a um quadro. Choro com livro, poema, pela beleza, emoção.

G1 – Qual foi a última coisa que te fez chorar?
Maria Rita – Foi uma notícia do pai que espancou o filho até a morte. Isso me deixou desnorteada. E alguns filmes como "12 anos de escravidão". Fiquei desnorteada num grau... Depois que vimos, minha amiga falou: "Vamos assistir outra coisa para espairecer". Eu falei: "Tenho vergonha, vou deitar nessa cama e dormir com esse barulho, essa dor." Sou chorona.

Maria Rita em São Paulo
Datas: Sexta (23) e sábado (24)
Local: Citibank Hall. Av. das Nações Unidas, 17.955 - Santo Amaro - São Paulo/SP
Ingressos: de R$ 40 a R$ 240

‘O samba decidiu por mim’, diz Maria Rita

Estadão / Cultura

Cantora faz em São Paulo shows do disco ‘Coração a Batucar’


Julio Maria - O Estado de S. Paulo

Maria Rita vem a São Paulo para lançar seu disco de sambas Coração a Batucar, hoje, às 22h, no Citibank Hall. A temporada de expectativas que a rondam desde que ela começou a se entender por cantora foi aberta logo que chegou ao fim Redescobrir, a turnê com a qual percorreu o País cantando o repertório da mãe Elis Regina. Foram tempos de amor e de dor. Do amor ela fala, da dor, não.

Coração a Batucar é a pedra do samba em estado bruto polida com seda. Sai de uma formação de grupo pensada pelo arranjador Jota de Moraes que foge às convencionais rodas de samba. Davi Moraes faz guitarras, Rannieri Oliveira toca teclado Fender Rhodes. As críticas a receberam muito bem no primeiro show realizado no Rio de Janeiro. Agora, é a vez de São Paulo.

Depois da extensa temporada com você cantando músicas de Elis, muita gente se pergunta como vai voltar Maria Rita. Essa expectativa era sua também?
Não, sabe por que? Eu fico alheia, fora dessas coisas. Isso foi martelado pela equipe que trabalha pra mim. Gravadora, assessoria de imprensa, que têm essa visão mais objetiva. Eu me propus fazer a homenagem à minha mãe, fiquei satisfeita, muito orgulhosa de mim. Aí quando vem o pessoal falar da expectativa, eu não consigo ver o que está acontecendo do lado de fora. Hoje eu lembro e digo que foi uma loucura, mas graças ao distanciamento.

Aliás, expectativas devem rondar sua vida desde os primeiros anos em que você segurou um microfone... 
Praticamente meu nome é Maria Expectativa Rita Expectativa Camargo Expectativa Mariano. Quem trabalha comigo me alertou muito. Aí, vem um com um número de venda, ok. Isso tem algum peso, por dois minutos, e então eu falo "Tá, deixa eu fazer o que sei fazer." Hoje sei que quando faço focada, sai com verdade e o público gosta. Mas quando faço pensando na expectativa dos outros, fica ruim, não dá certo.

Fazer um álbum de sambas foi uma decisão fácil depois de Redescobrir?
Não muito, fiquei com certa dificuldade de me localizar, saber o que eu precisava fazer. Foi a primeira vez em que falei ‘e agora, vou pra onde?’ Não senti isso depois do álbum Samba Meu, nem depois do Grammy Latino. Passou o tempo, eu fiz o show no palco Sunset do Rock in Rio cantando Gonzaguinha e ali eu falei "Rapaz, que saudade que eu estou disso". Sem querer parecer muito romântica, acho que foi o samba que decidiu por mim. O encerramento da turnê de Samba Meu foi muito sofrida, chorei muito, pensava em como iria viver sem aquilo, era muita alegria. Meu drama era ficar sem o palco. Mas eu não havia saído do samba, só fazia com outro grau de intensidade

Você fechou a história de cantar Elis? Faria de novo um projeto como aquele?
Eu acho que sim, eu fiz em um momento bom, certo, da forma como eu queria, mas não veio sem nenhum tipo de machucado. Fiquei espantada com o oportunismo das pessoas em torno do nome da minha mãe, coisas que aconteceram por trás das cortinas mas que não vêm ao caso. Isso foi muito frustrante para mim, muito dolorido. Por causa disso, acho que minha missão foi muito bem cumprida para ela, minha missão de filha. Eu já fiz o que eu tinha que fazer. Não sei daqui a 10 ou 20 anos o que vai acontecer, mas acho que está aí, passou. Não vou rejeitar, no novo show canto uma de Redescobrir, mas fazer desta forma com tal intensidade, eu diria hoje que não faria.

Uma cantora muda depois de uma experiência como essa, de cantar Elis por tanto tempo? Você aprendeu recursos de canto que não tinha, por exemplo?
Não era fácil, e por isso eu me permito ser arrogante pra dizer que ninguém canta Elis Regina como eu. E olha que eu não gosto de pagar pau pra mim mesma, não faço isso.

Romário entrava em campo dizendo a si mesmo que era o melhor jogador do Brasil. Você também faz isso?
Eu não digo que sou a melhor cantora do Brasil, digo que sou uma das melhores. Acho que podemos pensar assim para ganhar autoconfiança. Em vista do que foi aquele repertório (de Elis), eu sinto que sou sim uma cantora melhor hoje do que eu era. Eu tinha medo de explorar algumas técnicas, brincar mais com a voz, sair, e isso está aparente no disco novo, que soa mais livre.

E você é uma pessoa mais feliz depois de ter feito isso?
Acho que feliz não é a palavra, a palavra é mais aliviada. Havia aquela cobrança no início, as pessoas colocando palavras na minha boca. Depois me distanciei dela quando comecei a cantar e, com Redescobrir, trouxe ela de volta para meu o coração, minha alma, é uma lição de vida. Minha mãe cantava só aquilo em que ela acreditava. É um prazer muito grande trazer minha mãe para dentro de casa de novo. E é um alívio ver as pessoas entendendo isso. Claro que tem lá um número de gente que não entende, mas é um alívio ter isso tudo limpo e esclarecido.

Algumas críticas saíram dizendo que você estava fazendo um samba mais sofisticado...
A gente tem que tomar cuidado com categorias pra não cair no caricato. Eu tenho cuidado com minhas sonoridades em todos os meus discos, por que não teria com esse? Quando dizem que a capa não tem a ver com samba. que a sonoridade é sofisticada, a pessoa que diz isso me parece preconceituosa. A sonoridade do disco é ousada, eu reconheço. Tem guitarra e tal. Mas o Jota de Moraes, o Jotinha, que é um cascudo maravilhoso, disse que esse formato de banda é a sonoridade de grupo de samba dos anos 50, início de 60, quando não tinha cavaquinho nem banjo, É o contrário, é o samba mais tradicional do que a roda convencional. E eu não vou fingir ser uma pessoa que eu não sou. Quando me colocam dessa forma, vejo preconceito. É minha maneira de fazer. Eu não sou a Jovelina Pérola Negra nem a Dona Ivone Lara, e não pretendo ser.

Há algo acontecendo com o samba de especial. Gilberto Gil lança disco dos sambas de João Gilberto, O Prêmio da Música Brasileira fez homenagem ao samba. A Nívea homenageia o samba com um show em São Paulo neste final de semana. É tudo uma grande coincidência?
Será que é inconsciente? Será que há um patriotismo por causa da Copa? Confesso que tive um minuto de preocupação também quando vi que iriam sair tantas coisas sobre o samba. O 
eu disco estava pronto em dezembro. Pode ser uma onda que está passando e que a gente, inconscientemente, acaba pegando. Mas é aquilo, o samba também nunca foi a lugar nenhum. Tem artista novo na Lapa toda semana.

MARIA RITA
Citibank Hall. Avenida das Nações Unidas, 17.955, Santo Amaro, tel. 2846-6010. Hoje a amanhã, às 22 h. R$ 40 a R$ 240

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Maria Rita vem a São Paulo e avisa: “Alto lá! Túmulo do samba?”




Por Verrô Campos

Maria Rita traz para São Paulo, nos dias 23 e 24 deste mês, o show “Coração a Batucar”, todo de sambas. Aproveitamos para um bate-papo com a cantora sobre São Paulo, Elis, sua relação profissional com o marido Davi Moraes e, claro, samba. Voilà!

Você chega a São Paulo com o show “Coração a Batucar”, todo de samba. Você concorda com o título da cidade de túmulo do samba?
De forma alguma! Isso é muito antigo. Às vezes eu brinco com os músicos quando sai algo errado nos ensaios: “Tem paulista no samba”, mas não. Nossas escolas, desfiles, as composições e sambas são maravilhosos, tenho no meu show composições dos paulistas do Samba da Vela. Alto lá! Túmulo do samba?

Como é a sua relação com São Paulo?
Estou animada em me apresentar por aqui. São Paulo é a minha cidade, a minha casa, foi onde pisei no palco pela primeira vez. Nasci na Serra da Cantareira, morei aqui até os 16 anos, mas com uma longa temporada de shows de minha mãe no Rio. Depois fui para os Estados Unidos, onde morei até 2007. Tenho aquela relação de amor e ódio com a cidade, típica dos paulistanos.

O musical “Elis, a Musical”, sobre mãe, também está em cartaz na cidade. Você já assistiu?
Não consegui, estava na produção do disco e depois do nascimento de minha filha, Alice, fiz uma cirurgia de hérnia, tive que ficar dois meses de cama, ainda sinto dor. Mas pretendo sim, tudo o que diz respeito a minha mãe me interessa. Tenho certeza de que o espetáculo está em boas mãos: Denis Carvalho (o diretor) é um eterno apaixonado por Elis, o texto é do Nelson Motta e a produção do Calainho. Melhor, impossível. Mas vou por curiosidade, deve ser muito emocionante, a vida da minha mãe foi muito emocionante.

Como é trabalhar com o seu marido, Davi Moraes, no show? (é ele quem comanda a banda)
É muito tranquilo, foi Davi quem me ajudou a montar a banda, ele é muito profissional, trabalha desde os 17 anos, quando começou com o pai, Moraes Moreira. O marido fica na coxia, a gente é parceiro, tem uma admiração mútua.

No show você tem uma parceria com Fause Haten, que assina cenário e figurino. Você é ligada em moda?
Muito, desde a minha adolescência. Vejo a moda como expressão artística, sou muito próxima do Fause e também do Paulo Borges (idealizador da SPFW).

Como você sentiu a morte de Jair Rodrigues no dia 8 deste mês?
Eu não era tão próxima dele, até por uma questão geográfica, não tive essa felicidade… Quando estivemos juntos, ele foi carinhosíssimo, um fanfarrão, é o que quero guardar dele. Era impressionante, não dava para dizer a sua idade. Tenho uma relação com despedida um pouco complexa porque, ao mesmo tempo que é difícil para mim -tive que lidar com isso muito cedo na minha vida- eu compreendo. Acho que ele está bem.

SERVIÇO:
MARIA RITA – Turnê “Coração a Batucar”
Patrocínio: SKY
Realização: TIME FOR FUN
Data: 23 e 24 de maio de 2014
Horário: Sexta-feira e Sábado às 22h.
Local: Citibank Hall – Av. das Nações Unidas, 17.955 – Santo Amaro.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Unidos pela música, Maria Rita fala sobre marido famoso: 'Ele cuida de mim'

GShow

Cantora conta ainda que filho participou de seu novo disco: 'Tocou tamborim'

Maria Rita participa do Programa do Jô desta segunda-feira (Foto: TV Globo/Programa do Jô)

No Programa do Jô desta segunda-feira, 19/05, o apresentador Jô Soares entrevistou a cantora Maria Rita, que volta ao universo do samba em seu novo trabalho "Coração a batucar", produzido por ela própria. "Só tem samba nesse disco", comentou Maria Rita, que falou também sobre o fato de ser a única mulher na trupe que compõe sua banda, em turnê pelo país: "Minha sorte é que meu marido (músico Davi Moraes) está no meio. Ele cuida de mim".



Davi Moraes também entregou uma mania de Maria Rita, quando ela revelou que o músico tem 25 guitarras espalhadas pela casa. "É a mesma quantidade de sapatos que ela tem, tento equilibrar", brincou o músico.

Ainda na conversa "em família", a cantora contou que seu filho Antônio, de 9 anos, participou da gravação do novo álbum. "Ele tocou tamborim em uma música. Ele estava brincando com uns instrumentos e alguém brincou que já estava bom para gravar", revelou.

A cantora, que também é mãe de Alice, de apenas um ano e cinco meses, comentou que sua filha ainda não mostrou interesse por nenhum instrumento. "Ela ainda não toca nada, mas gosta de dançar", explicou.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Maria Rita volta a Porto Alegre com show de samba na turnê "Coração a Batucar"


Em entrevista à Zero Hora, cantora afirmou que o repertório será repleto de músicas do disco novo e sambas de outros álbuns

por Jaqueline Sordi 08/05/2014 | 19h14


Cantora se apresenta no Teatro do Sesi nesta sexta-feira em Porto AlegreFoto: Vicente de Paulo / Divulgação


Maria Rita volta à Capital para mostrar samba no pé. Nesta sexta-feira, às 21h, no Teatro do Sesi, a cantora apresenta seu novo disco no show homônimo,Coração a Batucar, dedicado somente a sambas. Em entrevista por telefone, ela prometeu não deixar ninguém parado. Liderada por Davi Moraes (guitarra), a banda de Maria Rita conta com Alberto Continentino (baixo), Rannieri de Oliveira (piano) e Wallace Santos (bateria). Os ingressos custam de R$ 95 a R$ 180 (mais informações no roteiro, na página central). 

Zero Hora _ Você sempre destaca a importância de ter a aprovação do público gaúcho, no Estado em que sua mãe, Elis Regina, nasceu. Qual a sua expectativa para o show de hoje? 

Maria Rita _ Na primeira vez que fui a Porto Alegre com o (show do disco) Samba Meu, fiquei muito apreensiva porque desconhecia a relação do Sul com o samba. Não sabia como ia ser recebida, cheguei a me questionar "E como vai ser em Porto Alegre?". E Porto Alegre foi a segunda capital, fora do eixo Rio-SP, em que eu mais me apresentei. Com este novo disco, tenho o conforto de saber que já existe uma relação estabelecida. Apesar de não ter nascido aí, recebo um carinho muito forte. 

ZH _ Com esta turnê, você retoma o samba? 

Maria Rita _ Este é um show até mais de samba do que os que apresentei na turnê do Samba Meu. Neste é só samba mesmo, de cabo a rabo. É samba de dar bolha no pé. O show é bem para cima. É para pegar a pessoa do lado e sair dançando. 

ZH _ Você irá retomar músicas de outros álbuns no show? 

Maria Rita _ O repertorio é de samba, exclusivamente de samba. Mas, como o samba é sempre presente nos meus discos e na minha vida, canções de samba de outros discos também estarão no show. 

ZH _ Você costuma se cercar de uma equipe de músicos excelentes, a começar por seu marido, o guitarrista David Moraes. 

Maria Rita _ A mesma banda que gravou o disco é a que vai aos shows comigo. Acho importante que o músico que se envolve na criação do disco também tenha a liberdade de criar no palco, ao vivo. Assim, o próprio show vai amadurecendo. 

ZH _ Algum recado especial para os fãs, além de irem ao show com sapatos confortáveis? 

Maria Rita _ Sim, isso é muuuito importante. Além disso, gostaria que todos decorassem o refrão de Mainha me Ensinou. É uma música que fico muito emotiva e que costumo chorar.

MARIA RITA

Sexta-feira, às 21h.
Classificação: livre. 
Teatro do Sesi (Assis Brasil, 8.787), fone: (51) 3347-8787

O show: cantora apresenta a turnê Coração a Batucar, seu segundo disco de samba. 

Ingressos: R$ 95 (mezanino), R$ 135 (plateia alta), R$ 155 (plateia baixa) e R$ 180 (plateia gold). Desconto de 50% para sócio do Clube do Assinante e de 20% para acompanhante. 
Pontos de venda: lojas Multisom (Shopping Iguatemi, Praia de Belas, BarraShopping Sul, Bourbon Ipiranga e Andradas 1.001) ewww.blueticket.com.br (há cobrança de taxas no site).

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Em CD, Maria Rita mata saudade do samba: declaração de amor


"A reverência ao samba foi com Samba Meu, que foi o primeiro passo nessa seara dos sambistas que sempre admirei muito, escutei muito. Com Coração a Batucar já é quase que o meu ambiente", afirmou
Foto: Vicente de Paulo / Divulgação


Maria Rita matou a saudade do samba com o novo CD Coração a Batucar. Disponível nas lojas a partir desta terça-feira (8), o álbum, na opinião da cantora, é a continuidade de uma declaração de amor feita ao ritmo com o disco Samba Meu, lançado sete anos atrás. Coração a Batucar é uma evolução, mais livre, com sonoridade da década de 1950, diz a artista. Tem faixas de samba com guitarra, de samba mais triste, de samba tocado com a palma da mão. E várias que fazem a artista chorar. A filha de Elis Regina e mãe de Antonio, de 9 anos e Alice, de 1 ano, se emociona especialmente com a música Mainha Me Ensinou, escrita pensando nela.

Recuperando-se de uma cirurgia de hérnia umbilical, Maria Rita se prepara aos poucos para o início da turnê pelo País, que começa no dia 12 de abril, em Lorena (SP) e vai incluir cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Os fãs que se preparem para “muita coisa boa” nos shows. “O público pode esperar muita bolha no pé, maquiagem derretida, sapato furado, sair melecado do show”, diz a cantora.

Confira a entrevista:

Terra - Você passou por uma cirurgia de hérnia umbilical recentemente. Como é que você está de saúde?
Maria Rita - Estou há mais de um mês dormindo sentada, porque não posso esticar a barriga. Já posso fazer atividade física e cantar. Estou fazendo exercícios de respiração para acostumar o corpo. Não tive muita coragem de cantar ainda, tenho cantarolado e está tudo bem. Estou um pouco apreensiva com o momento de volta dos ensaios, mas acho que vai dar tudo certo. O primeiro show da temporada é dia 12 de abril e os ensaios começam dia 1º de abril. Teve um dia que fiz um exercício de respiração abdominal, doeu um pouco, e não forcei. Mas vai dar tudo certo. Não é um bicho de sete cabeças, mas é uma cirurgia de cinco horas. Incha. O inchaço está diminuindo aos poucos. Mas a atividade de voltar ao palco vai auxiliar.

Terra - Coração a Batucar é um disco que faz uma reverência ao samba?
Maria Rita - A reverência ao samba foi com Samba Meu, que foi o primeiro passo nessa seara dos sambistas que sempre admirei muito, escutei muito.Com Coração a Batucar já é quase que o meu ambiente. Com o Samba Meu eu já mostrei a minha declaração de amor, o samba que eu gosto de ouvir e fazer, como é que eu vivo o samba. Coração a Batucar é quase uma continuidade disso, porque ele vem livre dessa minha gana de mostrar essa paixão com o samba. Essa liberdade está expressa na formação da banda, na sonoridade mais próxima da sonoridade do samba da década de 1950, quando você ainda não tinha o violão de sete cordas e o cavaquinho como elementos marcantes.

Terra - O disco tem samba com guitarra, samba com palma da mão. Você se preocupava em fazer um disco com todo “tipo” de samba?
Maria Rita -
Não. Foi acontecendo. Eu ia recebendo o repertório e enviava para o Jota (Moraes, arranjador). A gente montava no estúdio. Alguns arranjos a gente fez na hora, a coisa da palma na mão, por exemplo, foi na hora. Em outras músicas, eu sentia que tinha uma coisa mais para o grave, a melodia já mostrava isso.

Terra - Quando você pensou em fazer o CD, você já sabia que tinha que ser de samba?
Maria Rita -
Essa frase de “tem que ser um disco de samba” aconteceu depois da minha apresentação no Rock in Rio, em que tive repertório de samba com Gonzaguinha. Eu já vinha de um sofrimento saudoso deSamba Meu desde que a turnê encerrou. Eu chorava e pensava “o que vai ser de mim agora?”. E com o lance do Rock in Rio, explodiu essa necessidade. Eu ainda estava indecisa em relação ao que fazer no próximo trabalho, mas depois de tudo que rolou no palco, eu falei “preciso fazer mais um”. Tanto que se me perguntam se eu penso em largar o samba no próximo, eu digo que eu considero não largar mais o samba, assumir e seguir com isso. Não é uma decisão que eu tomei ainda, mas não pode ser descartado, porque é uma ligação bem forte que eu tenho.

Terra - Você diz em uma das músicas: “eu não nasci no samba, mas o samba nasceu em mim”. Como é a sua relação com o samba?
Maria Rita -
Essa frase explica bem, mas na mesma música tem uma frase que é “Quer me fazer feliz, vem me fazer sambar”. Eu tenho lembrança da infância, sentada no chão vendo escola de samba passar e eu ficava maravilhada com aquela beleza e alegria contagiantes. E mais tarde, quando eu entendi que as pessoas viviam daquilo, me arrebatou, porque eu tenho essa coisa de comprometimento e entrega e eu me identifiquei com aquela gente, por causa da realidade de comprometimento. Na década de 1990, eu ouvia samba no walkman até furar a fita. Era engraçado, porque meus amigos da escola ouviam música americana e inglesa e iam para matinê no sábado à tarde dançar música gringa e eletrônica. E eu gostava de samba, jazz e MPB. Eles falavam “você é legal, mas você é esquisita”.


Terra - Você se considera uma sambista?
Maria Rita -
Uma vez eu e o Arlindo (Cruz) conversamos e ele disse “li numa entrevista que você não se considera sambista. Você é sambista sim. Você não vive do samba? Você é mais sambista do que muito sambista”. E aquilo me marcou muito. Foi uma bronca do bem que ele me deu. E acho que eu sou. Quando as pessoas me chamam de sambista eu me sinto muito honrada. Eu tenho essa consciência do inconsciente coletivo da importância que o samba tem para a identidade nacional, de toda a história do samba. Ser admirada pelo que eu faço com o samba é de muita honra para mim.

Terra - Há sete anos você lançou seu primeiro trabalho integralmente dedicado ao samba, Samba Meu. Você considera Coração a Batucar uma volta ao samba?
Maria Rita -
Não. Entendo que quem está de fora veja assim, mas não sinto dessa forma. “Samba Meu” teve uma força grande na minha vida, me levou a muitos lugares fisicamente que eu não tinha ido, mas eu continuei vivendo o samba dentro de mim no meu dia a dia, só que eu não fazia samba. Mas nos shows tinha samba, mesmo em “Redescobrir” tinha samba. Foi mais uma necessidade do que uma volta.

Terra - Como Coração a Batucar dialoga com Samba Meu, além do fato dos dois serem discos de samba?
Maria Rita -
Eles são uma continuidade um do outro, uma evolução um do outro. Um chegou com um facão na mão e o outro veio depois, como um bloco que está na rua. Um não anula o outro, eles contam uma história.

Terra - Como foi a escolha das músicas?
Maria Rita -
Alguns compositores mandaram música para mim, pensando na minha história, no que eu falo, pensando na minha voz. Foi o caso de Meu Samba, Sim, Senhor, em que, numa conversa com o Marcelinho Moreira, falei da saudade que eu tinha do samba. O Arlindo Cruz e o Rogê escreveram É Corpo, É Alma, É Religião pensando em mim, falando do samba de São Paulo e do Rio. Eu fui madrinha da Vai-Vai em São Paulo, do Cordão do Bola Preta no Rio, desfilo no Império Serrano, na Mangueira. Eles sabem que para mim não tem muita demarcação de território. Além disso, a gravadora entrou em contato com alguns compositores e eu procurei os amigos que fiz ao longo dos anos (em busca de músicas). O Rodrigo Maranhão, por exemplo, me mandou um infinito de sambas. Foi fácil e rápido. Comecei em outubro e em 19 de novembro estava começando a gravação.

Terra - A faixa Mainha Me Ensinou (escrita por Arlindo Cruz e Xande de Pilares) foi uma encomenda que você fez?
Maria Rita -
Não. O Xande nem sabia que essa música estava comigo. Ouvi e me identifiquei demais. Eu vinha de um ano e meio cantando o repertório da minha mãe e eu identifiquei essa mainha que ensina, guia, dá colo, preocupada com a natureza. Me identifiquei por causa da minha filha, do meu casamento. Chorei horrores para gravar.

Terra - Que tipo de mãe você é? É leoa, é mais tranquila?
Maria Rita -
Sou muito leoa, ciumenta, preocupada. Não passo a mão na cabeça. Minha preocupação é com o ser humano, no que é que essas pessoinhas vão se transformar no futuro. Se eu não estiver mais aqui, eles vão saber lidar com a vida ou não? Cada um tem uma personalidade e eu fico respeitando o meu instinto. Ser mãe sem ter tido mãe não é uma tarefa muito fácil. Mas Deus me deu instinto, Deus deu para as mulheres instinto materno, que guia. Sou brava, ponho regra e depois pego no colo.

Terra - O seu filho Antonio (de 9 anos) participou do CD. Como foi?
Maria Rita -
Ele gosta de estar perto. Na gravação do segundo disco, eu fazia ele dormir dentro do estúdio, com uma música favorita dele. Depois a babá levava ele para dormir. Um dia, numa pausa para o café, o André (Siqueira, percussionista) estava mostrando os instrumentos para ele e ele começou a brincar. E aí ficou aquela brincadeira de “vai gravar”, ele olhou para mim e eu disse “vai”. E foi um barato. Cobrou cachê e tudo.

Terra - Você pagou o cachê?
Maria Rita -
Lógico. Não posso falar qual foi, se não ele me mata. (risos). Foi uma música relativamente simples, mas ele é muito musical. E eu faço tudo que eu posso para estimular, porque ele gosta.

Terra - Como foi o clima da gravação no estúdio?
Maria Rita -
Todo mundo ali ou é amigo de todo mundo ou é fã de longa data. Com essa admiração, carinho e respeito mútuo de todos, não tem ego nem arrogância. Foi muito fácil e rápido. Foi um clima de amigos. Também agrega o fato de ter sido gravado ao vivo, porque se um músico não estava gostando daquele jeito, todo mundo parava e fazia de novo. Isso tira um pouco da impessoalidade de cada um gravar em uma determinada hora, que acontece em alguns casos. O “ao vivo” cria uma camaradagem, todo mundo faz até ficar bom para todo mundo. E tem a emoção do momento. Tem uma mágica que acontece ali.

Terra - Você preferiu não corrigir algumas imperfeições durante a gravação de algumas músicas. Por quê?
Maria Rita -
Me cansa essa coisa perfeita e quase hospitalar dos discos de hoje. Ninguém é tão perfeito e afinado em 100% do tempo. As pessoas se emocionam. O samba, aliás, a música mexe com as pessoas. Alguém está passando por um momento delicado da vida, escuta uma música e salva. Recebo muitas cartas sobre isso, de gente que fala “o seu trabalho me deu coragem de seguir com meu sonho”, ou de “o seu trabalho me deu coragem de retomar contato com o meu pai”. Você não pode tratar a música como se ela fosse um botão na tela de um computador. Tenho uma espécie de claustrofobia com isso. A gente não é uma máquina perfeita. Fico cansada com essa textura imaculada de tudo. Fiz questão de deixar a voz embargada, a dicção não tão perfeita em uma música que eu sentia que era tão triste que eu jamais poderia cantá-la solar. Você tem que cantar a emoção, acreditar neste personagem.

Terra - Como foi a escolha da faixa de trabalho, Rumo ao Infinito?
Maria Rita -
Foi a primeira vez na minha vida que não escolhi a música de trabalho, foi a gravadora. Fiz uma reunião para mostrar o disco e eu estava totalmente contrariada, eu não estava nem mixando o disco ainda, não tinha uma ordem. E fomos com a cópia de monitor, que é crua ainda. E as músicas estavam em ordem alfabética. Estávamos ouvindo a música na reunião, e quando chegou Rumo ao Infinito, quando acabou a música, todas as 25, 30 pessoas na sala aplaudiram. E eu disse "não acabou o disco”, não era a última. E o pessoal de vendas e de rádio, que fazem acontecer de fato, ficava perguntando o nome da música. E eu pensei: “é isso aí, se eles não se metem no meu, eu não vou me meter no deles”.

Terra - Quais as suas músicas preferidas no CD?
Maria Rita -
É difícil dizer...

Terra - Alguma delas ainda te faz chorar quando você escuta?
Maria Rita -
A Rumo ao Infinito e a Mainha me Ensinou. Cada uma tem uma historinha. Todas são as preferidas porque ficaram na peneira. Mas Mainha me Ensinou talvez seja a preferida, porque tem um tom muito pessoal. Rumo ao Infinito me faz chorar pelo desenho melódico. Não é a letra, porque não me identifico com a história.

Terra - O que o público pode esperar da turnê?
Maria Rita -
Pode esperar muita bolha no pé, maquiagem derretida, sapato furado, sair melecado do show. Só coisa boa (risos).

terça-feira, 8 de abril de 2014

Maria Rita fala sobre novo disco e comparações com Elis Regina


Divirta-se UAI

Rio – Maria Rita começava a contar um caso sobre a mãe, Elis Regina, quando foi subitamente acometida por calafrios. “Eita!”, disparou, passando a mão pelo braço. As recordações, como se pode ver, ainda comovem e arrepiam, porém ser filha de uma das maiores cantoras do país já não assombra mais a intérprete de 36 anos, nascida em São Paulo.

Com pouco mais de uma década de carreira, cerca de dois milhões de discos vendidos e sete prêmios Grammy Latino na estante, Maria Rita, como ela mesmo diz, pode “dar uma banana” para quem acha que ela ainda imita a mãe, morta em 1982. Lançando novo álbum, Coração a batucar, repleto de sambas, a cantora recebeu a reportagem para uma conversa exclusiva de quase uma hora em um hotel no bairro carioca de Santa Teresa. Sincera e tagarela, mostrou-se muito mais extrovertida do que deixa transparecer: não fugiu a nenhuma questão e dissecou sem pudores a relação póstuma com a mãe.

ENTREVISTA

Você relutou, no começo da carreira, em abordar o repertório de sua mãe. Depois, acabou fazendo o projeto 'Redescobrir'. O que te fez mudar de ideia?
Pensei: quantos anos eu tenho? Quantos discos de ouro? Quantos países eu já visitei? Daí comecei a me perguntar o que eu devia para as pessoas (que me comparam a Elis). Nada. “Agora, tenho que provar para mim mesma. Eu sou capaz de cantar essas músicas?” Sou. E ninguém hoje no Brasil faz tão bem quanto eu fiz. Fiquei muito emocionada: estava lá como filha.

Hoje, você tem a mesma idade que sua mãe tinha quando morreu. Você está no auge e tem uma caminhada longa pela frente, algo que ela não pôde ter.
Isso mexe muito comigo. No dia em que eu fiz aniversário, foi estranho, como se eu tivesse perdido ela pela uma segunda vez. Agora eu estou sozinha, porque sei o que ela fez até os 36 anos. Minha mãe era genial, linda, e me inspira – como todas as mães e pais devem inspirar os filhos. Não tenho mais como comparar. Com 37, ela fez o quê? O que conquistei em 10 anos está longe do que ela teve. Mas não existe uma mãe e uma filha na música que conseguiram o mesmo sucesso que a gente fez. Os filhos do Lennon não chegaram lá. Os do Stevie Wonder também não. Depois de 10 anos, eu posso dar uma banana pra quem acha que eu ainda imito a minha mãe.

Comparações ainda te incomodam?

Não me incomodam porque ninguém nasce do nada. Filha de chocadeira, eu não sou. Acho as acusações inadmissíveis. As pessoas que ousam dizer que eu a imito, perco o respeito na hora, fecho a porta na cara. Uma mãe e uma filha são iguais porque é assim que a genética explica. Não estou inventando nada. Reconquistei uma relação com a minha mãe. Na adolescência, quando me sentia solitária, ouvia uma música dela e me sentia melhor. Larguei por causa dessas pessoas. Daí eu decidi que agora “vocês vão ver bem como é o negócio”.

Você é filha também de César Camargo Mariano. Pretende fazer algum projeto musical com ele?

Não. Já até pensei, mas meu pai é meu pai. Acho que se a gente trabalhar junto, eu não sei. Algo me diz que, pelo menos, não agora. Meu pai é muito experiente, ele é tão incrível no que faz, e eu sou tão centralizadora. Jogar nessa cumbuca o fato de ser pai e filha, eu não sei no que isso pode resultar.

Será publicada em breve uma biografia da Elis, escrita pelo jornalista Júlio Maria. Você já leu? O que acha de os filhos terem que aprovar esse tipo de publicação?

Estou com a prova do livro, mas não li ainda. Acho que essa vai ser “a” biografia de Elis, porque a outra ('Furacão Elis', de Regina Echeverria) não é, não. Existem situações e situações, mas, no geral, acho necessária a autorização, sim. Estão escrevendo uma biografia de uma pessoa que não está aqui pra contar o seu lado da história. Acho que o artista tem, sim, direito à privacidade. É uma interferência na vida de uma família. Fica um revanchismo de “quem manda ser famoso”. A pessoa que tem uma carreira pública, quando acorda de manhã, não é a mesma do palco. Tenho total direito de fazer com que meus filhos não saibam de algumas coisas da minha vida.

Você viu a peça 'Elis, a musical'?

Não, estava gravando na época. Não estou pronta para assistir, mas fico muito feliz com o resultado. Eu não tinha dúvidas de que o resultado seria honesto e íntegro. Na estreia, mandei um buquê para o elenco.

No novo disco, você canta 'Saco cheio', de Almir Guineto, que critica o fato de que “tudo que se faz na Terra/Se coloca Deus no meio”. Você acredita em Deus?
Não sou religiosa. Durante muito tempo, fui completamente ácida em relação a isso. Não conseguia acreditar em um deus que tirava a mãe de uma criança de 4 anos de idade. Então, minha relação de desentendimento passava pela perda da minha mãe. Mais tarde, tive um ataque de pânico e achei que fosse morrer. Comecei a perceber que tinha algo maior. Eu acredito em um deus. Acredito que aquele tal de Jesus Cristo existiu de verdade. Mas não sou de uma religião.

'Samba meu' (2007), seu primeiro disco de samba, passava a impressão de ser mais solar do que o 'Coração a batucar'. Isso reflete a fase que você vive atualmente?
Não. No 'Samba meu', queria que não ficassem dúvidas do tipo de samba que eu gosto de ouvir, de fazer. Comprei uma briga. Era outro momento, era a turma de quem eu frequentava a casa. Com esse, senti que não tinha que provar mais nada. Estou um pouco mais liberta. Acho que ele traz esse clima menos solar, apesar de eu não estar menos solar.

Xande de Pilares, líder do grupo 'Revelação', tem três músicas no disco novo. O que acha da segregação entre pagode e samba?
Longe de mim querer rotular. Queria muito ver alguém que me dissesse qual é a definição de um e de outro. O universo do samba é muito grande. Quando comecei a fazer a pesquisa de repertório do 'Samba meu', vi a imensidão desse gênero. Tem vertentes, tem história, tem tradições. E o que eu mais vejo por aí é uma rejeição ao termo samba de raiz. Você fala isso e o pessoal: “Eu não sou árvore”.

Durante a gravação de um disco, a gravadora se mete na questão artística?

Não. Com a minha primeira gravadora, eu tive o (Tom) Capone como fiel escudeiro, que brigou muito pelo meu direito de independência artística dentro da gravadora. Agora, na (minha atual gravadora), partiu deles a ideia de eu gravar o 'Coração a batucar'. Eles não se metem no meu trabalho, eu não me meto no deles. Quando falam “a gente precisa disso, disso e daquilo pro disco ficar pronto”, eu digo OK.

Isso ocorre por você ser uma artista de status diferenciado?

Acho que sim. Falando como empresária, se estou entregando resultado, tudo bem. Eu não entendo nada de marketing, não vou dizer o que eles fazem ou deixam de fazer. Temos uma parceria. A gravadora me disse que eles me entendem como uma artista de obra, que vende disco, não singles. Isso gera um conforto pra eles. Tem um lance com o público que faz com que o investimento valha a pena.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Maria Rita: "Ninguém faz o repertório de Elis Regina tão bem quanto eu"

IG

Cantora lança "Coração a Batucar", disco dedicado ao samba, e fala ao iG sobre a participação do filho de 9 anos no álbum, comenta a polêmica das biografias e responde a Agnaldo Silva

"Amigo é pra essas coisas", diz o título do samba de Silvio da Silva Jr. e Aldir Blanc. Pois foi com esse mesmo espírito que a cantora Maria Rita selecionou outros 13 sambas em seu novo disco, "Coração a Batucar", o segundo de sua carreira integralmente dedicado ao gênero.

"Usei das minhas amizades dentro do universo do samba", diz a cantora em entrevista ao iG, explicando seu principal critério de pesquisa para montar o repertório do álbum, da qual também é produtora.

Gravado de maneira mais orgânica, "quase ao vivo" no estúdio, o novo trabalho conta com a guitarra do marido, o músico Davi Moraes, que subverte o atual padrão de registro de canções do gênero por conta do uso do instrumento. "Mais do que talentoso, ele é meio camaleão no tocar. Tem hora em que tem a pegada do violão de João Gilberto, tem hora que ele toca como um cavaquinho e tem hora que toca como percussão", descreve Maria Rita.

Em entrevista ao iG, a cantora revela outros detalhes sobre a gravação de "Coração a Batucar" (que traz ainda a luxuosa e afetiva participação do filho Antonio, de 9 anos), fala sobre a experiência da turnê dedicada ao repertório de Elis Regina, sobre a polêmica das biografias e comenta declaração do novelista Agnaldo Silva, que disse que não quer ouvi-la cantando a música de mesmo nome de sua próxima novela, "Falso Brilhante", "imitando a mãe".

iG - Sete anos depois de "Samba Meu", você dedica um novo disco inteiramente ao gênero. O que te levou de volta a esse caminho?

Maria Rita - Não sinto este disco como uma "volta". Nunca deixei de viver o samba. O que aconteceu foi o seguinte: "Samba Meu" foi um projeto especial para mim, mas o encerramento da turnê, que durou cerca de dois anos e meio, foi muito sofrido. Não queria ter parado, foi totalmente contra a minha vontade. Contratantes de algumas das principais cidades do país já não queriam mais o show, pois estes mesmos lugares já haviam visto essa turnê mais de uma vez. Com isso, anunciei os últimos shows em algumas capitais e encerrei.

Do anúncio até o último show, realizado em Belo Horizonte, chorei todas as noites. Mal consegui cantar na capital mineira. De lá para cá, senti uma saudade eterna. Era um sentimento de abandono, solidão. E isso foi muito intenso.

Quando veio o Rock in Rio, no palco Sunset, no ano passado, levei as músicas do Gonzaguinha para o festival. Aí percebi o quanto tu estava sentindo falta do samba. Em outubro, comecei a pesquisa de repertório. Em novembro, entrei em estúdio. E, em dezembro, o disco já estava pronto. É uma continuidade, um momento a mais.

AgNews - Show de Maria Rita no Rock in Rio 2013

iG - Como foi a pesquisa para montar o repertório do álbum?

Maria Rita - Usei das minhas amizades dentro do universo do samba. Para os compositores mais íntimos, escrevi e-mails, liguei ou mandei mensagem. Em alguns casos, rolou entre os compositores a notícia de que eu estava gravado um novo disco, e me chegaram mais mensagens por e-mail. Outros tantos chegaram através da gravadora. Neste disco há algumas músicas que os compositores fizeram pensando em mim e na minha história. Marcelinho Moreira escreveu "Meu Samba, Sim, Senhor" depois de uma conversa que tivemos após um show da turnê de "Samba Meu". Já "É corpo, É Alma, É Religião" o Arlindo Cruz e o Rogê e o Arlindinho começaram a escrever pensando na minha história com o samba ("Eu não nasci no samba / Mas o samba nasceu em mim").

Outras duas músicas do Xande de Pilares me chegaram via gravadora com um recado carinhoso. "Saco Cheio", de Almir Guineto, já tinha escolhido antes de tudo. Ainda cheguei a comentar: "Independentemente do próximo disco que venha a gravar, essa música tem que estar". Ouvia 200 vezes por dia! Então, tem de tudo um pouco. Mas não tenho um critério. Estou num momento muito sereno da minha vida: casada com o homem que amo, ao lado de uma família linda. Venho de um projeto superbem recebido ("Redescobrir", em que gravou repertório de Elis Regina). Não tenho dramas para cantar e isso me liberta para ser puramente uma intérprete.

iG - Por que optou por uma gravação "quase ao vivo" no estúdio?

Maria Rita - Porque me cansa um pouco essa limpeza quase hospitalar dos discos atuais. Fico um pouco claustrofóbica, me dá certa aflição. O cantor e o músico são humanos. Há luz e sombra. Tenho um pouco de medo de mostrar ao meu público só a luz. Não consigo vender a estética de que está tudo bem, de "olha como eu sou feliz". Meu público me vê chorando, cantando com sangue nos pés, cantando com dor. É uma entrega irrestrita no palco. Não tenho por que fazer diferente em estúdio. Então, gravar "ao vivo" e escolher uma canção mesmo que eu esteja com a voz embargada mostra esse lado humano. Pensar que as pessoas não entendem isso é partir do princípio de que seu público é burro. E não foi o que me ensinaram. Não digo que quem não faz dessa forma está errado, mas a minha proposta estética passa pelas sombras do ser humano, pela imperfeição, pelos riscos e pela responsabilidade que tenho para com o público.

Maria Rita em show em homenagem a Elis Regina

iG - Gravações de samba, em geral, contam com instrumentos acústicos, mas em "Coração a Batucar" a guitarra é onipresente.

Maria Rita - Casei com o filho de um "novo baiano", deu nisso (risos). A guitarra tem muito a ver com o Davi (Moraes, guitarrista casado com Maria Rita e filho do cantor e compositor Moraes Moreira) e com o Rock in Rio. A partir do momento que cheguei à conclusão de que cantaria músicas de Gonzaguinha no festival do ano passado, comecei a pensar em como as apresentaria para o público. Escolhi sambas mais rasgados, mais a ver com a consciência social dele, que era bem escancarada. Não queria deixar de fazer samba, mas queria expandir. É aí que entra a guitarra do Davi. Mais do que talentoso, ele é meio camaleão no tocar. Tem hora em que tem a pegada do violão do João Gilberto, tem hora que ele toca como um cavaquinho e tem hora que toca como percussão. Davi é muito versátil e inteligente, musicalmente falando. Com isso, agrega à minha vida de musicista com essa coisa destemida de experimentar, que também tem muito a ver com criação musical que ele recebeu do pai. Curiosamente, nas primeiras conversas que tive com o Jotinha (Jota Moraes, arranjador), ele concluiu que montei uma banda de samba da década de 1950, que usava a guitarra, e não tanto os instrumentos que consideramos tradicionais hoje. Não era minha intenção, mas acabou funcionando muito a favor do disco. "Coração a Batucar" vem com um pouco mais de liberdade.

iG - Como foi a participação de seu filho Antonio no disco?

Maria Rita - Ele se meteu lá no meio e seduziu todo mundo. Voltei de uma pausa para um café e o vi mexendo nos instrumentos de percussão junto com o André (Siqueira, percussionista), que estava ensinando Antonio a tocar. Ele logo pegou o jeito, principalmente o tamborim, o que deixou todo mundo impressionado. Ele tem uma musicalidade gritante. E alguém falou: "Toca nessa música aí". Era "Vai Meu Samba", que pedi que fosse calcada na levada do tamborim. Eu deixei. O pior que poderia acontecer seria gravarmos novamente. Ficou bom, ficou fofo. Ele ainda quis negociar o cachê depois. E conseguiu (risos).

iG - Você se emocionou várias vezes nos ensaios de "Rumo ao Infinito". Algum motivo em especial?

Maria Rita - A beleza da canção mexeu comigo. A história que ela conta eu nunca vivi. É verídica, mas não é minha. E é linda. A música tem uma melodia que, mesmo sem letra, já se entende do que se trata. Isso mexeu muito comigo não só os ensaios, mas quando a ouvi pela primeira vez. Imediatamente enviei a música ao Jotinha, por e-mail. Já na segunda audição, eu chorava copiosamente. Ela meio que já nasce clássica. Traz aquela sensação de que você já a ouviu.

iG - E como foi acumular a função de produtora do disco?

Maria Rita - Foi um exercício muito bom, mas exaustivo. O "Coração a Batucar" mostrou que ainda tenho muito que aprender antes de produzir algum outro artista. Pois não descarto isso de forma nenhuma. Quero aprender a mexer na mesa, aprender sobre periféricos, sobre microfonação. Quero fazer cursos. Sou CDF. Gosto desse processo todo, e adoraria fazer isso para alguém. Este disco mostrou que sou capaz e que estou no caminho certo. Estou muito feliz com o resultado.

iG - Já há algo definido com relação à turnê?

Maria Rita - O show já está pronto. Passei janeiro ensaiando. O roteiro já está fechado, e a gente volta a ensaiar apenas para a pré-estreia de 12 de abril, que será em Lorena. Será um ensaio aberto. Depois fazemos a estreia para valer aqui na Fundição Progresso, no Rio, em 26 de abril.

iG - O álbum será lançado em vinil?

Maria Rita - Ainda não conversamos sobre isso, mas curto muito essa onda. Temos duas vitrolas em casa, e Davi tem sei lá quantos discos. E ainda ganho outros de presente. Acho lindo. Para lançá-lo em vinil há todo um processo de remixagem e remasterização, para que caiba tudo na bolacha. Mas seria muito legal.

iG - Qual é a relação que você faz entre seu trabalho, a internet e o contato com os fãs por meio das redes sociais?

Maria Rita - Vou ser sincera: até dou meus palpites, mas confio muito mais na assessoria de imprensa e no marketing da gravadora. Até porque, se depender de mim, vou querer tomar conta do processo inteiro. Quanto às redes sociais, entrei no Twitter em 2008, mas mais para ter um jeito mais rápido de conversar com meus amigos nos Estados Unidos. Quando percebi, tinha uma galera me seguindo. Também tenho Instagram, mas Facebook eu não curto. Tem uma galera que cuida da minha página, mas eu não entendo muito. Apesar disso, acho essas ferramentas fundamentais. Sou muito cobrada pela equipe de internet, assim como também me cobro muito em relação a esse assunto, mas tenho um excesso de cuidado acerca da minha privacidade. Já me fez muito mal. Como disse o Ziraldo: "A internet conseguiu dar palco pro canalha, pro invejoso". Aconteceram coisas comigo e pensei: "Parei. Isso não é para mim". Isso me alimenta uma culpa, pois acho que deveria dar mais atenção ao Twitter e ao Instagram. Às vezes, acho que preciso estar mais próxima do público do que da minha família. Encontrei o seguinte equilíbrio: em dia de show, sou deles. Quando não tenho que trabalhar, sou da família e dos amigos.

iG - Falando em internet, Agnaldo Silva publicou uma mensagem em seu blog sobre sua próxima novela, batizada provisoriamente de "Falso Brilhante": "É um título ótimo, desde que não me ponham na trilha sonora a Maria Rita a cantar a música do mesmo nome imitando a mãe dela… Ou eu corto os pulsos". Você chegou a ler essa declaração?

Maria Rita - Sim, fiquei sabendo por meio de um fã. Mas eu não tenho nada a falar sobre isso. Não vou ficar rebatendo agressividade gratuita. Só aponto um equívoco: "Falso Brilhante" não é o nome de uma música, e sim de um espetáculo e de um álbum de minha mãe.

iG - Como você avalia o impacto do projeto "Redescobrir" sobre sua carreira, passado algum tempo?

Maria Rita - Nossos universos, meu e de minha mãe, se encontraram. Foi uma viagem muito profunda. Como artista, me modificou de um ponto de vista mais técnico, porque são canções altamente desafiadoras em relação a melodia, harmonia, extensão de voz e interpretação. Depois de cantar esse repertório por um ano e meio, agora sei que sou uma cantora de alto nível. Posso soar pedante dizendo isso, mas tenho certeza de que ninguém faz o repertório de Elis tão bem quanto eu. Hoje consigo expandir minha capacidade vocal, desde o alcance às texturas.

"Brinco" mais com a minha voz, me sinto mais à vontade para fazer coisas que antes nem sabia que tinha capacidade. Consigo saber muito melhor até onde posso ou não posso ir, vocalmente falando. Também me modificou na questão do entendimento da força que um artista tem na vida de uma pessoa, na vida de um país.

Música não é só a bagunça e a alegria. De cima do palco, olhava a comoção, a alegria e a saudade com as quais as pessoas reagiam. Acabou sendo um show muito familiar para o público e para mim. Percebi muita cumplicidade das pessoas vendo a filha de Elis Regina ali. Não era mais uma cantora interpretando ou fazendo um tributo como tantas já fizeram. Era a filha cantando para caralho as músicas da mãe, para a mãe.
Quando cantei "O Bêbado e a Equilibrista" para um mar de gente no Parque da Juventude, em São Paulo, vi a força que um artista pode ter na vida de um ser humano e na identidade de um povo. Olhava aquilo e pensava (Maria Rita faz uma pausa, com a voz embargada): "Que meus filhos tenham de mim um pouco desse orgulho que eu estou sentindo da minha mãe".

Então esse projeto mexeu muito sim, como cantora, mãe, ser humano e como cidadã consciente que eu sempre fui. E trouxe minha mãe e a avó dos meus filhos para dentro da minha casa. Tinha virado as costas para ela durante esses dez anos.

Tenho um senso de justiça muito reto, mas, de uns anos pra cá, não sei por que me acomodei um pouco. Acho que foi pelo entendimento de que o artista hoje vive uma realidade dentro de um mercado que te engessa, que se você fala é tido como babaca. As pessoas não têm mais paciência pra isso. Mas não deveria ficar tão preocupada, deveria fazer mais.

iG - Muito se discutiu no ano passado sobre a autorização prévia da publicação de biografias por parte dos biografados ou de seus familiares. Como você se posiciona diante dessa questão?

Maria Rita - Há situações e situações. No caso do Júlio Maria, jornalista que deve lançar uma biografia da minha mãe a qualquer momento, eu conheço seu trabalho. Sei quem ele é e sei de sua ética. Para mim, foi fácil aprovar a autorizar a pesquisa. Tanto que, quando me mandou a prova do livro, eu não li. Porque não sou melhor do que ninguém. Não posso dizer para um artista se o que ele está fazendo é certo ou errado. A não ser que eu seja paga para isso (risos). Mas ele insistiu, então concordei em ler.

Esse é um ponto. Agora, se chega uma pessoa que não sei quem é e escreve um livro como este que já existe ("Furacão Elis", de Regina Echeverria)... Eu sento com as pessoas que deram depoimentos e 100% delas disseram que têm ódio dessa mulher porque ela torceu tudo o que escreveu. Uma pessoa não pode se achar no direito de contar coisas da intimidade da minha vida e das quais eu tenho total direito constitucional de preservar, inclusive. Amanhã vem um louco e conta uma coisa qualquer a respeito da minha vida e meu filho não tem como entender. Eu tenho o direito de não contar algumas coisas para o meu filho.

Li coisas sobre a minha mãe aos 12 anos de idade que me piraram a cabeça. E isso não é justo, porque ela não estava aqui para se defender nem para me explicar. Não quero dizer que o biógrafo não deva exercer sua profissão. Muito pelo contrário. E também não acho também que a família deva editar a vida de um artista. Estou falando exclusivamente de artistas, porque acho que um artista não é a mesma coisa que um presidente da república, que deve satisfações à sociedade. Eu não devo satisfação da minha vida a ninguém.
Li um argumento que dizia que o herdeiro de um biografado não pode privar um país de seu legado cultural. OK, então falemos sobre a carreira dessa pessoa. Por que fuxicar a vida do ser humano? Se há algo que aquela pessoa não queira que seja passada para frente, e ela tem direito a isso, acho que a família também tem direito de saber o que está sendo escrito sim. Parece fofoca disfarçada de intelectualismo. E eu adoro ler biografias, mas eu não compro biografia não autorizada.

Outra coisa que me deixou desnorteada quando li: "Mas o que há de tão grave que deva ser escondido?". E eu pergunto: mas por que o que se esconde tem sempre de ser grave? Pode ser um assunto delicado para mim e que eu não queira dividir com ninguém. Mas repito: quanto mais livros forem escritos sobre corrupção, mentiras, lavagens de dinheiro e CPIs, melhor e mais importante vai ser para o país e o amadurecimento da democracia. É uma outra discussão.

Mas não venha me dizer que o que eu faço dentro da minha casa é importante para alguém. Disso você não vai me convencer. O que o Caetano Veloso faz ou deixa de fazer é assunto dele, não tenho nada a ver com isso. Diga-me, por favor, sobre as músicas, sobre seu trabalho, sua obra e o que ela significa. Contextualize. Acho isso mais interessante

"Era muito chato quando se emocionavam ao me ver", diz Maria Rita

Uol

Fabíola Ortiz
Do UOL, no Rio 27/03/2014 08h01




Sete anos se passaram desde que Maria Rita lançou "Samba Meu", seu primeiro álbum dedicado ao gênero que estampa no título. Agora, a filha de Elis Regina retorna ao estilo no disco "Coração a Batucar", que chega às lojas no dia 8 de abril. E, dessa vez, a artista de 36 anos se diz mais livre e com mais intimidade para poder até brincar com a voz.

Pela primeira vez, Maria Rita assina sozinha a produção do disco. "Insegurança, claro, bateu em alguns momentos. Mas na hora do martelo final não fiquei insegura, mas muito serena e certa das escolhas que tinha feito", disse ela em entrevista ao UOL.

Com 12 anos de carreira e ganhadora de seis prêmios Grammy Latino, Maria Rita disse que está mais madura para lidar com a timidez no palco, com jornalistas, fotógrafos e público. "Peso mesmo foi há 20 anos, quando era adolescente, e tinha aquela coisa de achar tudo um saco. Para mim, era muito chato quando as pessoas se emocionavam ao me ver. Aquilo era um peso para mim, essa sombra de ser parecida com a Elis fisicamente. Achava insuportável".

Cantora e produtora
Depois de CDs e DVDs oriundos de gravações ao vivo, Maria Rita quis voltar a fazer um disco "do zero", segundo ela, com direito a pesquisa de repertório, conceito e sonoridade. "O 'Coração a Batucar' vem mais livre e com a intimidade de sambistas. Faço com honra. Tenho uma relação íntima, fortíssima e instintiva com o samba desde a infância. O samba é sempre muito presente na minha vida".

A ideia ressurgiu em 2013, durante os preparativos para o Rock in Rio. Para o festival, Maria Rita preparou um repertório com sambas de Gonzaguinha que cantou no Palco Sunset. "Era um sonho para qualquer artista tocar ali. Foi arrebatadora a confirmação da saudade e necessidade minha de continuar [com o samba]. A certeza veio quase que atropelando".

O disco reúne entre os compositores Rodrigo Maranhão, Noca da Portela,Xande de Pilares, Arlindo Cruz e Joyce Moreno. São 12 faixas que trazem o espírito de roda de samba em terreiro. E, para isso, ela assumiu os riscos de gravar em estúdio como numa roda de samba. "Essa coisa de terreiro em círculo é uma coisa minha. Gosto de gravar ao vivo, buscando o humano e a emoção de cada um dos músicos interagindo. Cada um conseguiu olhar no olho do outro".

As gravações começaram no dia 19 de novembro do ano passado e antes do Natal já haviam terminado. "Foi bem rápido, me assustei bastante, no bom sentido. Tinha a sensação de que havia esquecido alguma coisa. E essa sensação se confirmou por um segundo no final, já na mixagem, quando resolvi chamar o Arlindo para fazer a última música do disco ['É Corpo, É Alma, É Religião']".

O repertório também tem o incremento do sambista Noca da Portela, que deu a Maria Rita uma música que mantinha inédita há 30 anos. "Eu quase caí da mesa. Fiquei bastante emocionada. É um repertório que veio acontecendo livremente, intuitivamente. Não encomendei nada, mas chegaram músicas escritas pensando na minha história".

À sombra de Elis Regina
Embora tenha convivido pouco com a mãe --Elis morreu quando Maria Rita tinha quatro anos de idade--, a cantora diz que durante a adolescência foi buscar entender a própria história. "Descobri uma mulher linda, inteligentérrima, apaixonada pela vida e pelos filhos, corajosa. Isso é muito inspirador".

Os três filhos de Elis Regina: Maria Rita, Pedro Mariano e João Marcello Bôscoli

No começo da carreira, Maria Rita decidiu se afastar da imagem da mãe. "Eu virei as costas para ela. Eram insuportáveis as acusações de que eu a imitava. Levei até as últimas conseqüências". Recentemente, a cantora revisitou o repertório de Elis em "Redescobrir" e foi naquele momento em que percebeu a falta da mãe.

Questionada sobre o que Elis pensaria hoje da filha ao ver o disco de samba, Maria Rita disse não ter dúvidas de que a mãe a apoiaria. "A gente teria tido uma amizade muito bacana e teríamos sido muito próximas. Tenho certeza de que teria o apoio dela em todas as decisões difíceis que tomei".