sábado, 18 de setembro de 2010

Turnês das cantoras de jazz e fãs da cultura brasileira Stacey Kent e Diana Krall rodam ao mesmo tempo o país que as inspirou

16/09/2010 - O Globo

Elas têm navegado na mesma raia, na qual se encontram, suave e harmonicamente, as águas do jazz e da bossa nova, e, agora, suas turnês também chegam ao Brasil no mesmo período. Mas a cantora americana Stacey Kent e a pianista e cantora canadense Diana Krall, ambas com 45 anos, descartam qualquer rivalidade.

- Gosto muito de Diana. Ela faz a música de que gosta e em que acredita. Essa é a verdadeira chave e deve ser a fundação de qualquer trabalho artístico - diz Stacey, que esta quinta, às 22h, volta à cidade, na Varanda do Vivo Rio, após na noite do sábado passado ter se apresentado no Casa Cor. - Sobre o fato de, em alguns momentos, eu e Diana cantarmos as mesmas músicas, o importante é que fazemos cada uma de sua maneira, uma bem diferente da outra.

Enquanto Stacey apresenta ao Brasil o repertório de seu último CD, lançado em abril deste ano, "Raconte-moi" (selo Blue Note, da EMI), todo em francês, incluindo, na abertura, "Les eaux de Mars" (a versão de George Moustaki para o clássico jobiniano "Águas de março"), Diana volta com a turnê de "Quiet nights", que roda o mundo há quase dois anos e já passou pelo Rio - agora em apresentação no Teatro Oi Casa Grande, na próxima segunda-feira, dia 20, às 21h.

- Música boa não deve ficar restrita a poucos. Quanto mais intérpretes se voltarem à bossa nova, melhor. Quando comecei a cantar standards, fui criticada por alguns pelo fato de serem músicas antigas, mas, hoje, vemos o quanto essas canções permanecem fortes e atuais - garantiu então a canadense, que também diz conhecer e gostar do atual trabalho de Stacey Kent.

Entrevistada dias antes, a americana fez coro, afinada com o discurso de Diana:

- A idade de uma canção, ou de um movimento, não importa. O que é bom em arte dura para sempre. A primeira vez que ouvi bossa nova, era praticamente criança, tinha uns 10 anos, mas naquele momento o mundo mudou para mim. Eu não sabia nada sobre o Brasil, mas me identifiquei imediatamente, vi que aquela era uma sensibilidade que eu também tinha - conta Stacey, em português fluente, após um curso do idioma que fez ao lado do marido, Jim Tomlinson, também o saxofonista e o diretor musical de sua banda.

Apesar dessa imersão na cultura, que, além de muitos discos ("João Gilberto é meu Deus, mas também adoro Caetano, Marisa Monte, Maria Rita, Cartola..."), inclui a literatura de Machado de Assis, Clarice Lispector e Luis Fernando Verissimo e do português Fernando Pessoa, Stacey nega já pensar num disco focando o Brasil.

- Ainda devemos viajar mais dois anos com "Raconte-moi". Misturamos as músicas desse disco e de meus anteriores, também atendendo a pedidos de meus fãs brasileiros, que gostam de falar comigo no Facebook. Dependendo da noite, da plateia, o roteiro pode mudar. Mas prefiro não pensar demais no que vai acontecer depois, e continuar mergulhada nesse trabalho.

Já as "noites silenciosas" de Diana Krall estão mais perto do fim. Lançado em abril de 2009, esse disco começou a nascer após um show no Vivo Rio, em novembro de 2007, quando, em alguns momentos, a canadense foi acompanhada por um espontâneo coro do público. Ainda naquela noite, Diana recebeu no camarim Carlos Lyra, João Donato, Roberto Menescal, Marcos Valle, Emílio Santiago e Mart'nália. De volta ao Canadá, também incentivada pelo produtor (e presidente do selo Verve) Tommy LiPuma, outro apaixonado pela música brasileira, a cantora resolveu prestar seu tributo aos 50 anos que a bossa nova iria completar em 2008. O repertório de "Quiet nights" traz quatro clássicos do gênero - três de Jobim, incluindo o que dá título ao CD (a versão de "Corcovado"), mais "Este seu olhar" (que Diana interpreta num português carregado de sotaque) e "The boy from Ipanema" (versão para o inglês, e para mulheres, que Ella Fitzgerald, por exemplo, já tinha gravado), e uma de Marcos e Paulo Sérgio Valle, "Samba de verão" (na versão em inglês, "So nice"). O restante do disco, e depois do show, que já rendeu um DVD gravado ao vivo no Rio, traz standards do jazz e do pop, mas em arranjos bossa-novistas segundo o maestro alemão Claus Ogerman - o homem por trás dos clássicos LPs gravados nos anos 60 e 70 por Tom Jobim, João Donato e João Gilberto.

Acompanhada por Anthony Wilson (guitarra), John Clayton (contrabaixo) e Jeff Hamilton (bateria), Diana celebra um flerte iniciado há 30 anos:

- Desde os 15 anos, sou apaixonada, ouvi também muito Sergio Mendes, seus discos instrumentais e os pop, nos quais adaptava Beatles para a bossa. E, quando tocava piano em bares, a partir dos 17 anos, os clientes sempre me pediam "Garota de Ipanema" e tantos outros sucessos da bossa.

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