O sucesso na América Latina, e também no cada vez mais forte mercado hispano-americano dos EUA, foi uma surpresa até para a dupla. Em cinco anos, os porto-riquenhos do Calle 13 têm acumulado prêmios - já são dez estatuetas do Grammy Latino e duas do Grammy Americano -, turnês concorridas e vendas de discos. Tudo isso com letras quase sempre de forte conteúdo político, que, entre outras coisas, protestam contra o fato de essa ilha no Caribe ser uma colônia, ou, como preferem seus brothers, um estado dos EUA.
- Nunca fizemos concessão e, pelo tema das nossas canções, poderíamos ter sofrido boicote. Mas o nosso sucesso é também uma prova de que o público quer se informar - comenta Residente (nascido René Pérez Joglar, em fevereiro de 1978), o rapper que lidera o Calle 13 ao lado do multi-instrumentista Visitante (ou Eduardo José Cabra Martínez, nascido em setembro do mesmo ano). - A América Latina é muito politizada e tem passado por muitas mudanças, algumas positivas, outras negativas.
O Calle 13 se prepara para tocar pela primeira vez no Brasil, no Telefônica Sonidos: Festival Mundo Latino, que começa hoje em São Paulo e vai até sábado. Com a pretensão de diminuir as distâncias culturais entre o Brasil e os países de língua espanhola, o evento tem dois palcos, Jazz Latino (a partir de hoje, com Ana Carolina e a italiana Chiara Civello, e que, até sábado, terá shows de Pablo Milanés e Maria Rita, Pedro Aznar e Maria Gadú, Banda Mantiqueira e Gonzalo Rubalcaba, e Yamandu Costa e Alfredo Rodriguez) e Pop Urban (na sexta, com Fito Paez, Nando Reis e Ana Cañas, e no sábado, com a dupla porto-riquenha, o DJ americano Pitbull e o grupo Monobloco).
Apesar de as letras, em espanhol, com eventuais palavras em inglês, terem forte papel no trabalho do Calle 13, Residente não se assusta com a barreira da língua que deverá enfrentar.
- Imagino que seja um desafio similar ao que tivemos nos EUA, em festivais como o Coachella e o Jazz Heritage, de Nova Orleans. Em alguns momentos, resumi em inglês os temas que iria cantar. Me disseram que os brasileiros entendem melhor inglês que espanhol, é verdade? - pergunta, para depois se conformar com a resposta negativa.
Grupo vai além do reggaeton
Apresentado como fenômeno do reggaeton - gênero que mistura o rap com a salsa e demais ritmos caribenhos, e que teve entre seus primeiros sucessos o cantor Daddy Yankee -, Residente faz questão de delimitar diferenças com o estilo.
- Não pretendo com isso dizer que somos melhores, mas sim que nossa música tem uma gama maior de cores e sabores. Mesmo que também façamos reggaeton, incorporamos outros estilos.
O nome da dupla - que, no palco, ganha a adesão de nove músicos - e seus pseudônimos estão relacionados às suas biografias. Quando crianças, a Rua 13 era onde René residia e recebia visitas de seu irmão adotivo Eduardo - a mãe de René/Residente, a atriz de teatro Flor Joglar de Gracia, casou-se em segundas núpcias com o pai de Eduardo/Visitante. A música era um dos elos dos garotos, mas, antes de se profissionalizarem, Residente estudou Contabilidade e trabalhou como designer, enquanto desenvolvia uma paixão pela cena underground do rap porto-riquenho; e Eduardo fez Computação e trabalhou como instrumentista e produtor.
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