Bravo!
No livro A Palavra Pintada, o jornalista americano Tom Wolfe define três etapas na jornada de um artista rumo à notoriedade. A primeira é a "dança boêmia", na qual o candidato a músico, escritor, ator, cineasta etc. busca o reconhecimento de seus pares. O nome dessa etapa inicial deriva do fato de essa "dança" se dar nos meios boêmios, onde o artista encontra sua turma. O segundo passo é o "reconhecimento" - o momento em que o artista sai do gueto e conquista o que Wolfe chama de "os culturati", ou seja, os críticos, editores ou donos de galerias que legitimam, com seu prestígio, os novos nomes surgidos nas rodas boêmias, possibilitando sua entrada no mercado. A terceira fase é o sucesso de público propriamente dito, que permite ao artista sobreviver dignamente de sua arte - e, devidamente estabelecido, conquistar a liberdade para criar e ousar cada vez mais (o dramaturgo americano Tennessee Williams escreveu certa vez que um artista criava melhor com a barriga vazia, mas ele estava, claro, fazendo o marketing da "dança boêmia" junto aos culturati). Tom Wolfe escreveu A Palavra Pintada há 34 anos, e sua intenção com o livro (que acaba de ser relançado pela editora Rocco) não era falar de criadores em início de carreira, mas sim satirizar o mundo das artes plásticas. As três categorias que inventou, no entanto, valem até hoje, e para todas as áreas. Os artistas continuam fazendo a "dança boêmia", procurando o reconhecimento dos culturati e, com o aval deles, tentando atingir o grande público. Uma variável que Wolfe não poderia prever alterou o ritmo da dança: a internet, que modificou radicalmente algumas áreas do mundo da cultura e multiplicou as maneiras de um artista se lançar. Na reportagem que se segue, BRAVO! faz um panorama da situação do mercado em várias áreas artísticas. Não é autoajuda nem um guia infalível para fazer sucesso. Os caminhos para entrar no mundo da arte são múltiplos, e existe sempre a variável decisiva do talento. As histórias do início de carreira de artistas consagrados, espalhadas por estas páginas, também podem servir de inspiração. Afinal, é sempre bom ficar de olho no exemplo dos grandes - caso do autor desta reportagem, que recorreu às categorias inventadas por um craque do jornalismo.
MÚSICA - A GUERRA PELOS MELHORES PALCOS
Na abertura de um curso promovido por BRAVO! na Academia de Ideias de Belo Horizonte, o cantor e guitarrista Roberto Frejat contou como sua vida mudou da noite para o dia. Em 1982, o grupo Barão Vermelho, que ele liderava junto com Cazuza, foi convidado a assinar contrato com a gravadora Som Livre depois de um show memorável no Circo Voador, no Rio de Janeiro. "Foi como um sonho. Num dia éramos jovens brincando de fazer rock e em outro tínhamos dinheiro e éramos idolatrados por fãs do Brasil inteiro", lembrou Frejat na ocasião. Enredos como esse são cada vez mais raros nos dias de hoje. Nenhuma área da cultura foi tão alterada pela internet quanto a música. A oferta de canções de graça na rede quebrou várias gravadoras e enfraqueceu as que sobraram. Nos tempos em que Cazuza e Frejat tinham uma banda, as multinacionais da música tinham o poder de tornar um grupo recém-fundado onipresente no rádio, transformando-o num sucesso. Hoje não é mais assim. A notícia boa é que a mesma internet que virou de ponta-cabeça o negócio da música criou novas possibilidades de acesso ao mercado.
É na internet que se realiza, hoje, a "dança boêmia". "Você tem de ter um Twitter - o nosso conta com mais de 15 mil seguidores -, biblioteca de vídeos no YouTube, site, arquivo de fotos e canções de acesso rápido e boa qualidade", diz Fernando Anitelli, líder do grupo Teatro Mágico. Na internet tudo muda totalmente quase todos os dias, mas no momento em que esta reportagem é escrita a melhor ferramenta para se lançar na "dança boêmia" ainda é o MySpace. No site de relacionamentos, o artista pode procurar sua turma. Essa turma não se reúne mais no bar, mas na rede, lançando-se em tribos que podem até ser mundiais. Por exemplo: pouca gente sabe, mas o Brasil tem várias bandas de surf music no circuito internacional que se lançaram através da internet. Entre elas, Os Maremotos (de Curitiba), The Surf Motherfuckers (de Belo Horizonte) e Los Muertos Viventes (de Vitória, no Espírito Santo). O MySpace é bom para estabelecer relações, mas é duvidosa sua eficiência para atingir os culturati. O único exemplo digno de nota é o da cantora adolescente Mallu Magalhães. Em outubro de 2007, ela colocou quatro músicas no site. Ao longo de um ano, sua página no MySpace tinha sido procurada por mais de 1 milhão de pessoas. Em novembro do ano seguinte, ela lançava seu primeiro CD (leia crítica do segundo álbum da cantora na página 92 desta edição).
E quem seriam os culturati na cena musical atual? No tempo de Cazuza e Frejat eram os executivos das gravadoras que tinham o poder de fabricar o sucesso. Hoje em dia são os donos das casas noturnas que lançam os novos talentos. Elas existem no Brasil inteiro, em cenas locais cada vez mais vibrantes. Os palcos mais cobiçados pelos artistas jovens, no entanto, estão em São Paulo, numa mudança de eixo devida aos novos tempos. Antes, era importante fazer sucesso no Rio de Janeiro, onde estavam as gravadoras. Agora, é melhor em São Paulo, onde está o maior e mais rico mercado de shows. A meca desses novos artistas é a a rua Augusta. Reabilitada depois de décadas de decadência, a via hoje é um ponto de referência musical e abriga casas que lotam a semana inteira. Uma das mais assediadas pelos jovens estreantes é o Studio SP. Ale Youssef, um dos sócios do lugar, diz estar atento a tudo de novo que está surgindo. Ele afirma receber vários CDs, mas de uns anos para cá ele pede às pessoas que o procuram que enviem suas músicas para o e-mail da casa (curadoria@studiosp.org).
CINEMA - A REVOLUÇÃO DO FILME DIGITAL
Em dezembro do ano passado, a seção Nossa Aposta, de BRAVO!, dedicada aos jovens talentos, destacou o incrível caso do brasiliense Matheus Souza. Aos 20 anos, ele decidiu fazer um filme quase sem dinheiro - e conseguiu. Com R$ 7 mil arrecadados numa rifa de uísque e equipamento digital emprestado da faculdade onde estudava - a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro -, Matheus rodou Apenas o Fim, uma comédia romântica estrelada por ele mesmo e repleta de referências pop. "Chamei amigos da faculdade que faziam teatro para integrar o elenco e gravamos o filme nas férias para ter o equipamento em tempo integral. Como a câmera não podia sair da faculdade, então rodamos tudo lá dentro mesmo", diz o jovem diretor. O longa foi rodado em 12 dias. Neste ano, Apenas o Fim ganhou a votação popular em dois eventos importantes, o Festival do Rio e a Mostra de Cinema de São Paulo - ou seja, pulou a etapa da "dança boêmia" e foi direto aos culturati.
O caso de Matheus ilustra uma verdadeira revolução. Até pouco tempo atrás, o aspirante a uma carreira no cinema, principalmente na área de direção, sofria na comparação com o músico - que precisava apenas montar uma banda e pagar horas de estúdio - ou com o escritor - que dependia de um lápis e de um apontador para colocar suas ideias no papel. Em contrapartida, cinema sempre foi caro. Agora está deixando de ser. Nos Estados Unidos, o formato digital já se popularizou em documentários e é uma porta real para quem quer entrar no mercado. O marco é o filme A Bruxa de Blair, de 1999, que explodiu mundialmente ao custo de US$ 100 mil - valor desprezível no mercado americano. Ainda é raro, mas existe também a possibilidade de um jovem cineasta se lançar através do YouTube. Em 2006, Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes fizeram um curta-metragem de ficção chamado Tapa na Pantera, protagonizado pela atriz Maria Alice Vergueiro. Em apenas uma semana, foi visto por 200 mil pessoas. Além de turbinar a carreira da atriz, Tapa na Pantera ajudou a projetar o nome de Esmir. Neste ano, ele estreou seu primeiro longa, Os Famosos e os Duendes da Morte, e venceu o Festival do Rio, a principal vitrine do cinema brasileiro.
Antes do YouTube e do cinema digital, restava a um candidato a uma carreira no cinema buscar estágio na publicidade, cujo mercado é muito mais robusto do que o dos longas de ficção. Diretores respeitados como Fernando Meirelles (leia depoimento na página ao lado) e Heitor Dhalia fizeram fama no mundo dos anúncios antes de se aventurar nos longas. Esse meio de acesso à profissão continua valendo, já que cinema é algo que também se aprende na prática. "O melhor caminho para se ter base nessa área é trabalhar em equipes de filmagem e ir subindo devagar - como estagiário, assistente de produção, fotógrafo, assistente de direção", diz a produtora Rita Buzzar, de Budapeste. Ela acha que o candidato a cineasta deve pegar qualquer trabalho que aparecer na área, incluindo vídeos de vendas e institucionais, e faz uma ressalva sobre o acesso à profissão através da internet: "Você pode aparecer e se tornar reconhecido, mas o excesso de oferta também aumenta o risco de cair no vazio".
TEATRO - A EFERVESCÊNCIA DO MUSICAL E DA CENA ALTERNATIVA
Os que querem iniciar uma carreira no teatro se beneficiam da efervescência que a arte de Sófocles experimenta hoje no Brasil. De um lado, surgiu uma cena alternativa vibrante - que sobrevive graças ao modelo de negócio inventado por companhias como Os Satyros e Parlapatões, onde o lucro de um bar acoplado ao teatro ajuda a pagar as contas das peças. De outro, se fortalece um teatro comercial que cada vez mais necessita de atores com formação sólida, notadamente na área dos musicais. Para entrar no circuito alternativo nada mais eficiente que uma boa "dança boêmia". Em São Paulo, a cena se concentra num polo de produção como nunca houve no Brasil, a praça Roosevelt - com seus sete teatros ocupados em diferentes horários e bares lotados. Diretores, dramaturgos e atores aproveitam o burburinho do espaço para fazer networking - ou seja, conhecer gente e encontrar trabalho. Claro que fazer amigos não é suficiente. São necessárias boa formação e afinidade estética com o grupo em que se quer entrar.
Já para entrar no circuito comercial é preciso, em primeiro lugar, uma formação sólida. Mais e mais instituições no Brasil fornecem cursos que aperfeiçoam os fundamentos da arte do ator - da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, em Brasília, à Escola Livre de Teatro, em Santo André (na Grande São Paulo). Depois de uma boa formação, é o caso de procurar os culturati - no caso, encenadores que fazem testes para grandes produções. Claudio Botelho e Charles Möeller são hoje os mais importantes diretores de musicais no Brasil, contando com vários sucessos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nessa área, os critérios para selecionar um ator - que, de preferência, deve ser também dançarino e cantor - são absolutamente profissionais e artísticos, como frisa Botelho. "Em um musical feito por nós, não é possível entrar por ser amigo de alguém, ou namorado ou amante. Geralmente os melhores cantores, atores e bailarinos são os que passam nos testes, mas cada musical precisa de um determinado registro e tipo de artista; portanto, sempre há oportunidades para todos", diz ele. Testes para musicais não faltam. Atualmente, Botelho e Möeller estão selecionando profissionais para atuar no espetáculo Gypsy, trazido da Broadway nova-iorquina. A dica de Botelho para quem quiser ingressar nesses espetáculos é aprender canto e dança dirigidos a musicais. "Não adianta estudar ópera ou dançar balé. É preciso ter foco nos musicais."
E a internet? Até agora, o YouTube só foi útil para atores de vocação muito específica, como os comediantes do estilo stand up. Seus sketches curtos se adaptam ao formato do site, que permite no máximo filmetes de 10 minutos. O YouTube ajudou a chamar a atenção para artistas que hoje sobrevivem no mercado da comédia, como Oscar Filho, Rafinha Bastos e Danilo Gentili. Mas apenas nesses casos, já que, como lembra o dramaturgo Gerald Thomas, teatro pela internet é uma contradição em termos. "Teatro não é tecnologia, é algo para que o público esteja na presença do ator, a metros dele. Se você tenta transformar em tecnologia, fica pretensioso. Essa integração de mídias é a maior mentira que já houve."
LITERATURA - DO BAR AO BLOG, DO BLOG AO PAPEL
O escritor italiano Umberto Eco costuma dizer que o livro, ao lado da cadeira, é o objeto de design perfeito. É possível que ele esteja certo. Numa era em que a tecnologia modifica o panorama de todas as artes, o livro resiste bravamente. Os rituais dos escritores também sobrevivem. Não há muita diferença entre a "dança boêmia" dos autores de hoje e a dos tempos do escritor francês Théophile Gautier - que, lembra Tom Wolfe, reunia artistas de várias áreas em rodas de discussão apelidadas de "cénacles" no século 19. A versão moderna dos antigos cafés franceses são os bares, que variam com a cidade e com a geração. Em São Paulo, uma franquia da rede Fran's Café situada no bairro da Vila Madalena assistiu ao surgimento da chamada Geração 90 - a de autores como Luiz Ruffato, Nelson de Oliveira, Evandro Ferreira e Marcelino Freire. Lá, eles liam contos e trechos de romances uns para os outros. Devidamente publicados, eles se converteram em culturati - são procurados pelos novos escritores (que em São Paulo frequentam outro bar no mesmo bairro, o Mercearia) para conseguir indicação para editoras. Esse ritual do reconhecimento envolve também outros cenários. Entre eles estão as várias feiras literárias espalhadas pelo país, onde sempre é possível compartilhar a mesa do boteco com um editor. Outro são as oficinas literárias - a de Marcelino Freire, por exemplo, está entre as mais procuradas pelos jovens.
Mesmo a literatura tendo mudado pouco, a internet tem seu papel nessa área. No tempo em que os blogs eram moda, muito se falou que os contos e romances estavam migrando do papel para formatos digitais. Grossa bobagem - pelo menos até agora, a internet ainda não se estabeleceu como suporte para a literatura, e os blogs acabaram saindo de voga em tempos de Twitter. A internet, no entanto, cumpre um papel na hora de colocar os jovens autores em contato com os culturati. "Os blogs são, ou foram, uma forma diferente de chamar a atenção do mercado, colocando textos ao alcance do público", diz o editor Paulo Roberto Pires, da Agir, que publicou há alguns anos uma coletânea de jovens contistas do Rio de Janeiro surgidos na internet. Entre eles, o argentino-carioca João Paulo Cuenca, que está finalizando seu terceiro romance. Outro caso famoso de escritor surgido na internet é o gaúcho Daniel Galera. No início do ano 2000, ele escreveu uma coletânea de contos chamada Dentes Guardados e a colocou na internet para que todos pudessem imprimir. No ano seguinte, criou a editora Livros do Mal e fez sua estreia no papel. Hoje, publica pela editora Companhia das Letras. Não se sabe se foram os meios digitais ou a ousadia de se lançar de forma independente que chamaram a atenção dos culturati mas sem dúvida alguma a internet teve seu papel no enredo.
ARTES PLÁSTICAS - PEGANDO CARONA NO PRESTÍGIO DOS CONSAGRADOS
No mês de novembro, a revista britânica The Economist publicou uma reportagem de capa defendendo que o Brasil é a bola da vez da economia mundial. Em termos de mercado cultural, isso é particularmente válido para a área de artes plásticas. Nesse nicho, a demanda é globalizada, e com isso a procura por novos talentos é grande. Um dos caminhos para chegar ao mercado é se formar em instituições de prestígio - como, por exemplo, a Faculdade Armando Álvares Penteado, a Faap, de São Paulo, que é hoje a maior referência na área no país. No fim do curso da Faap, é montada uma exposição com os trabalhos dos alunos que atrai galeristas e curadores atrás de novos talentos. Outra vitrine importante é o Centro Cultural São Paulo. Os curadores da instituição abrem periodicamente inscrições para concursos com jovens artistas, que ganham assim a possibilidade de participar de exposições que são uma porta de entrada para o mercado. Repare que tanto a Faap quanto o Centro Cultural são de São Paulo. A cidade é a capital das artes plásticas no país, o que - como no caso da música popular - leva muitos criadores a se mudarem para lá.
Nessa área, a internet ainda não é um meio de atingir os culturati. Os especialistas também desaconselham bater de porta em porta com um portfólio debaixo do braço. Mais eficiente do que isso é entrar para o cénacle da arte contemporânea, que são os ateliês abertos. A coisa funciona assim. Artistas consagrados transformaram seus ateliês em verdadeiras galerias e centros de discussão. Em São Paulo, por exemplo, Sandra Cinto e Albano Afonso abriram o Ateliê Fidalga em seu local de trabalho, e Adriana Rocha e Luiz Sôlha fizeram algo semelhante criando a Galeria do Meio. Esses artistas promovem encontros em que talentos jovens mostram seus trabalhos uns para os outros e também criam exposições coletivas frequentadas por marchands e galeristas. Se você não teve a sorte de fazer uma boa faculdade nem é amigo o suficiente de artistas consagrados para participar de ateliês abertos, não desanime. Force a barra para ser descoberto, chamando um marchand ou galerista para visitar o seu ateliê. Nessa área, o apoio de um culturato é fundamental. Hoje como no tempo em que Tom Wolfe escreveu A Palavra Pintada, o grande público participa apenas lateralmente do jogo das artes plásticas.
DANÇA E MÚSICA ERUDITA - ESTUDAR, ESTUDAR, ESTUDAR
Nessas duas áreas a internet não tem vez. O importante é estudar, estudar e estudar - pelo menos seis anos na área de dança e de oito a dez na de música erudita, de oito a dez horas por dia. Sem esse pré-requisito, é melhor nem tentar a sorte. Unidas pela necessidade de muita ralação, cada área tem sua especificidade. Na música erudita, o percurso para chegar a uma grande orquestra pode ser longo. Em geral, a formação começa na infância. Terminado o ensino médio, é hora de procurar uma faculdade de música. As melhores do país são as da Universidade de São Paulo, Federal do Rio de Janeiro e Federal de Minas Gerais - coincidência ou não, localizadas nas capitais que abrigam as principais orquestras do país, a Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), a Sinfônica Brasileira (cuja sede é no Rio de Janeiro) e a Filarmônica de Minas Gerais. O diploma na mão, no entanto, não garante nada. É importante, já durante a faculdade, que o músico esteja tocando em alguma orquestra jovem. Elas existem em todas as partes do país e são aquilo que o violinista Eliseu Martins de Barros, da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, chama de "categorias de base". "Elas funcionam como pequenos celeiros", afirma ele. O maestro de seu conjunto, o paulista Fabio Mechetti, diz que tocar em conjunto é o que dá confiança aos músicos e traz o respeito dos pares. Uma mudança neste mercado é que hoje, ao contrário do que ocorria no passado, não é tão importante estudar fora. "Desde que a Osesp surgiu e estabeleceu um alto padrão de excelência, criou-se um bom mercado no Brasil, com salários competitivos", diz o violinista Eliseu. "Tanto que vários músicos que trabalhavam no exterior estão voltando."
Na dança, infelizmente, o mercado não está assim tão em alta. O país já possui companhias de projeção internacional, mas são poucas e insuficientes para elevar a média salarial. As principais são o Grupo Corpo, de Belo Horizonte, e a Companhia de Dança Deborah Colker, sediada no Rio de Janeiro. A recém-fundada São Paulo Companhia de Dança começa também a se tornar uma opção atrativa para os bailarinos. Nesse mercado restrito e ultracompetitivo, além de estudar obsessivamente, recomenda-se ao bailarino que assista a espetáculos de diferentes correntes e mantenha a técnica em dia, de modo a saber executar vários estilos. "Isso faz com que ele não se torne um mero instrumento na mão de um coreógrafo, algo que infelizmente é muito comum e atrapalha na hora de trocar uma companhia por outra", diz o bailarino e coreógrafo Ivaldo Bertazzo. O acesso aos melhores grupos se dá por audições, que duram em média uma hora. "Ali são avaliadas algumas características essenciais para quem deseja ingressar num grupo, entre elas técnicas de dança e movimento, perseverança, ambição e foco dos candidatos", diz Zeca Rodrigues, assistente de produção de Deborah Colker. Há quem critique o fato de alguém que passou a vida estudando ser avaliado num tempo tão curto. Mas o mundo da dança é cruel - e, nele, não existe outra forma de acesso.
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