quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Obra de Simonal é revista em documentário, CDs, biografia e show

26/11/09 - Jornal Cruzeiro do Sul

A chegada do consistente documentário "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei", de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, ao circuito comercial dos cinemas, repercutiu muito bem. Foi só o começo da onda de revival da vida e da obra do cantor. Na esteira do bom êxito do filme, a gravadora EMI lançou a trilha sonora, uma compilação com canções de maior sucesso em sua voz, e a Universal veio com" Um Sorriso pra Você", coletânea de fonogramas do cantor na Philips, de 1972 a 1974.

Recentemente, chegou às livrarias a biografia "Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal" (Editora Globo, 392 págs., R$ 39,90) de Ricardo Alexandre. O premiado documentário acaba de sair em DVD pela Biscoito Fino, com vários extras inéditos. A gravadora EMI aproveita a oportunidade para reeditar a ótima caixa de CDs "Wilson Simonal na Odeon" (1961-1971), de 2004, e lança um show-tributo, "Baile do Simonal", em CD e DVD. É um pacotão completo para quem já gosta ou está interessado em se aprofundar na história e na musicalidade de um dos maiores cantores populares do Brasil em todos os tempos.

Se os discos estão aí para encher os ouvidos de alegria e fazer os corpos embalar em seu suingue, a biografia, fruto de dez anos de pesquisa, mais do que o filme se aprofunda na incrível trajetória do cantor negro e pobre que chegou ao topo da cadeia do show biz. Talentoso, famoso, rico, invejado, requisitado, caiu vertiginosamente, no auge do sucesso, por uma atitude irresponsável, misto de ingenuidade e prepotência, como comentou Nelson Motta no filme.

O nebuloso episódio que o levou a carregar, até o túmulo, a controvertida fama de informante do regime militar é a parte que todo mundo que se interessa pelo personagem já conhece. Trunfo maior do documentário é a entrevista com o contador Raphael Viviani, que teria tomado uma surra dos repressores do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), a pedido de Simonal. O cantor suspeitava que seu contratado o estava roubando, mas Viviani se defendeu dizendo que na verdade Simonal torrava todo dinheiro que ganhava.

Nos extras do DVD, os diretores comentam a fundamental entrevista com Viviani e mostram como chegaram até ele, depois de recorrer aos serviços de um detetive. Há também trechos de um programa de televisão, só em áudio, sobre montagem de fotos. O texto do programa é de um humor desconcertante. "Dê o seu marido velho de entrada e retire um Simonal novinho em folha. Use e abuse do Simonal. Simonal já vem queimado", dizia o cantor, ironizando a cor da própria pele, na qual iria sentir futuramente o peso do racismo, como apontaram alguns amigos nos depoimentos.

No mesmo show de tevê ele também conta uma história fictícia sobre um sonho que teria tido com uma música de seu repertório fazendo sucesso no mundo. Então canta em tom paródico "Mamãe Passou Açúcar em Mim" em ritmo de fado, de tango e soul music, mais um exemplar exercício de sua criatividade e versatilidade vocal. Em texto fluente e rico em detalhes, Ricardo Alexandre mergulha na história do cantor, desde a infância pobre, o auge do sucesso na segunda metade da década de 1960 (quando era tão ou mais popular do que Roberto Carlos), até depois do fim da vida artística, a partir do imbroglio envolvendo polícia, política, racismo, o consequente alcoolismo e o ostracismo artístico até a morte.

A grande guinada em sua trajetória foi o contato com Carlos Imperial, fundamental na formação e na lapidação do artista. Há episódios engraçados, como quando Imperial, escolado em pilantragem, armou pra cima de Eduardo Araújo, sem prejudicá-lo, para facilitar a vida de seu novo pupilo. O cantor, comprova Alexandre, "nunca escondeu que o grande responsável por sua carreira, seu grande descobridor e incentivador, foi mesmo Carlos Imperial".

Em agosto deste ano Max de Castro e Simoninha, que também produziram a caixa, prestaram uma homenagem ao pai , organizando o "Baile do Simonal", que a EMI registrou e lança agora em CD e DVD. Além dos filhos, o show contou com participações de Mart’nália, Fernanda Abreu, Seu Jorge, Caetano Veloso, Ed Motta, Sandra de Sá, Orquestra Imperial, Marcelo D2, Samuel Rosa, Paralamas do Sucesso, Diogo Nogueira e outros menos cotados. Esse tipo de tributo ao vivo reunindo um monte de gente (alguns com nada a ver com o homenageado) costuma resultar desastroso. "O Baile do Simonal", porém, surpreende positivamente. O fato de ter uma grande e talentosa orquestra servindo de base dá (suingada) unidade ao show.

O repertório é de clássicos de autores como Jorge Ben ("Que Maravilha", cantada sem muito ânimo por Maria Rita, "Zazueira", "País Tropical") Toquinho e Vinicius ("A Tonga da Mironga do Kabuletê"), Caetano ("Remelexo", na voz do próprio), Milton Nascimento e Fernando Brant ("Aqui É o País do Futebol"), Carlos Imperial e Nonato Buzar ("Mamãe Não Passou Açúcar em Mim", deliciosamente reinterpretada por Mart’nália). Destoam dos demais a gravação em estúdio de Lulu Santos para "Zazueira" e a participação de Alexandre Pires estragando uma das mais marcantes canções do repertório de Simonal, "Sá Marina" (Antonio Adolfo/Tibério Gaspar). Coisas de gravadoras.

Trecho do livro 'Nem Vem que Não Tem...'

"País Tropical foi o maior sucesso da carreira de Wilson Simonal. No exterior Sá Marina é mais conhecida e mais gravada, na no país que inspirou a canção, esse "suco" de suingue, samba, malemolência carioca, otimismo e resignação social foi um dos maiores êxitos do período 1969- 1970, um grande avanço em termos de padrão de arranjo e performance para o cantor e o Som Três. País Tropical foi a primeira gravação de Simonal depois do show no Maracanãzinho, provando que o sujeito estava mesmo numa fase abençoada. Simonal e Jorge Ben Jor eram inseparáveis."

"Tudo o que Simonal fazia era notícia. O sucesso alcançado no México ou o contrato com Sergio Mendes; o suco de abacaxi que a empregada Nair servia aos jornalistas ou a desinteria que um prato de ostras provocou em São Paulo; os preparativos para desfilar no Salgueiro no Carnaval de 1971 ou o almoço que preparou para Stevie Wonder durante a passagem do cantor pelo Rio de Janeiro; sua opinião sobre Milton Nascimento ou a coleção de telefones (com mais de trinta peças); seus planos para o próximo Festival Internacional da Canção ou para possíveis shows em Luanda, na África, ou na Expo 70, no Japão. (Lauro Lisboa Garcia - AE)

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