27/02/09 - O Povo
A carreira começou há 50 anos, com o menino César debruçado sobre as teclas do piano. Fã de jazz e música clássica, ele cresceu e, junto com outros meninos, fez parte da criação da bossa nova. Ao lado de Elis Regina, César Camargo Mariano teve três filhos, também músicos: Marcelo, Pedro e Maria Rita. Pianista celebrado em todo o mundo, vencedor de dois Grammy Latinos, ele finalmente integra a escalação do Festival de Jazz & Blues. “Faz 10 anos que esse festival corre atrás de mim, e eu corro atás deles”, brinca durante entrevista nos bastidores da etapa de Guaramiranga do evento. Para quem não subiu a serra ou simplesmente gostaria de um repeteco, César apresenta-se esta noite, no Theatro José de Alencar.
O POVO - Este ano você comemora 50 anos de carreira. Está preparando algum projeto especial?
César Camargo Mariano - Comemorando não, eu estou fazendo 50 anos de carreira. Comecei a contar quando me profissionalizei, quando tirei a minha carteira da Ordem dos Músicos, que é de número 873. Foi quando fiz 15 anos - hoje eu tenho 25, né? (risos) Então, se eu tiver de comemorar meus 50 anos, 50% vai ser pra comemorar no trio e 50% em outro sonho, que é um trabalho com a orquestra sinfônica, que a gente vai dar um start agora, em 27 e 28 de março, em São Paulo. Vou tocar com a Jazz Sinfônica no Teatro do Ibirapuera. A gente tá se organizando pra, a partir dali, gravar CD e DVD, com músicas minhas, de Pixinguinha... É um sonho de criança.
OP - Com esse projeto, há alguma chance de você voltar a morar no Brasil?
César - Não precisa. Não sei se volto um dia, a gente não sabe nunca. Já moro nos Esatdos Unidos há 15 anos, e lá a gente fica perto do mundo. E perto do Brasil também. Parece que a gente só mudou de bairro!
OP - Como estão os trabalhos por lá?
César - Continua igual. Lançando disco, fazendo trilha de filme - que não é muito, não, porque o mercado de trilha de cinema lá é complicado, mas dá pra fazer uma vezinha -, trabalhos de shows, porque lá tem muito festival, o ano inteiro, em tudo quanto é lugar. A gente roda muito, vai pra Europa, Japão. Ou com o piano solo ou com o duo e agora com o trio.
OP - No Festival de Jazz & Blues, você apresenta o formato clássico do trio, com piano, baixo e bateria. Como surgiu a idéia de fazer esse retorno ao início da carreira?
César - A coisa do trio foi uma coincidência boa. De repente, lá em casa, com a minha mulher, a gente estava lembrando do início da minha carreira, vendo no YouTube uns vídeos de trio, do Lenny Dale. E apareceu um cineasta querendo fazer um filme sobre a vida dele me chamando pra fazer a trilha. Umas coincidências assim me reportaram àquela época. Não que seja um trio de bossa nova. A essência era, mas era influenciada pelo jazz. Essa formação era comum, às vezes, por uma questão física e geográfica: os lugares eram pequenininhos, com um pianinho, espaço pra tocar violão, metade de uma bateria e um contrabaixo acústico. Não se fazia show com quarteto, quinteto, guitarras, não existia show como a gente conhece hoje.
OP - O que o trio tem de especial para você?
César - O trio é uma delícia! Mas é importante dizer que essa formação em trio é muito difícil, muito complicada. São três caras, tocando três instrumentos diferentes, um de ritmo, um de base e outro de harmonia e melodia, então, precisa, antes de mais nada, na minha opinião, ter uma afinidade pessoal e musical muito grande. Na hora que você vai fazer um arranjo, uma composição, evidentemente que sai da cabeça do pianista, mas, na hora de sentar pra montar, vira uma criação coletiva, e isso só acontece num duo ou num trio. O resto já depende de partitura; um quarteto, um quinteto com uma flauta, aí já começa a virar outra coisa. No trio, se um de nós tira a mão do instrumento, fica um buracão desse tamanho, então é muito delicado. Isso sempre me fascinou, e eu comecei a tocar por causa disso.
OP - Em casa, qual foi sua formação musical?
César - Todo mundo ficava ligado o dia inteiro ouvindo só os trios. Não tinha Michael Jackson, então a gente ouvia só isso. A rádio não era legal, a programação era meio devagar. A informação que eu recebi dentro de casa, através dos meus pais, foi de música clássica e jazz. E o que mais me chamava atenção era o piano, por isso comecei a tocar o piano.
OP - Entre os trios que você ouvia nessa época, havia o Nat King Cole Trio. É verdade que você chegou a conhecer o Nat King Cole em uma vinda dele ao Brasil?
César - Não, não conheci. Mas tem uma historinha entre mim e o Nat King Cole. A primeira vez que ele veio ao Brasil, eu tinha 15, 16 anos. O patrocinador do evento, que trazia ele pra cá, perguntou se tinha alguém que pudesse fazer as chamadas dos shows dele na televisão. Naquela época não existia videotape, e os comerciais eram feitos ou em filme ou ao vivo. Então um produtor da TV Record de São Paulo me conhecia, sabia que eu tocava e que eu gostava dele e perguntou se eu gostaria de fazer esses comerciais com as mãos pintadas de preto, porque só apareceriam as mãos. E eu falei: “Claro que sim!”. E fui, com a autorização do meu pai, porque eu era menor. Fiquei um mês, todo dia, fazendo cinco, seis chamadas por dia, ao vivo, com as mãos pintadas de preto, tocando igual ao Nat King Cole. Quando ele chegou ao Brasil, viu as chamadas na TV e perguntou quem era aquele cara. Falaram pra ele que era um garoto, e ele quis me conhecer. Aí começou um drama incomensurável: ele meu ídolo, sabia que ele queria me conhecer, então eu ia todo dia com meu pai na porta do hotel de manhã até... E ninguém deixava eu entrar. E ele querendo, e os caras filtrando. Sabe aquele negócio de segurança, de empresário? “Não, deixa pra lá, vamos filtrar isso aí. O Nat King Cole tá com mania de querer conhecer o garoto”, sabe esse tipo de coisa? Ele veio, tocou, foi embora, não consegui ver o show dele, não consegui nada.
OP - Ainda muito jovem você fez parte do surgimento da bossa nova. Como foi participar daquilo tudo?
César - Foi superlegal. Hoje a gente realiza, mais ou menos, até. Mas na época, era todo mundo moleque ali. Era “Vambora, fazer show aqui, fazer show ali”, a gente queria tocar. O que de real acontecia era uma realização muito grande, musical, criativa, porque o que existia no rádio, no mercado da música, era muito aquém daquilo. Esse nível de composição a gente só tinha nos discos importados que conseguia, naquela historinha dos trios que eu tava falando. E shows, a gente só via isso em fotografia ou no cinema. E, de repente, uns loucos começaram a fazer isso aqui no Brasil, então a gente se realizava. Consegui participar de shows importantíssimos, com grandes artistas. Era tudo muito profissional, a gente aprendeu isso. Hoje a gente fica até espantado. Por exemplo, o disco Elis e Tom, que eu fiz os arranjos, produzi, imagina: com Tom Jobim, em Los Angeles, com um monte de músicos, aquela coisa estrutural enorme, maravilhosa. Hoje a gente pensa e dá um frio na espinha. Mas, na época, a gente queria estar com Tom, queria fazer um disco com Tom, só com músicas dele, com ele tocando um violãozinho, cantando com a gente. A gente não tinha idéia nenhuma do que ia acontecer com aquilo, nenhuma, zero idéia. E aconteceu o que aconteceu: virou uma coisa enorme e até hoje é.
OP - Hoje o Marcelo, seu filho, é baixista do seu trio. Você e Pedro gravaram um disco juntos, e Maria Rita dispensa apresentações. Como é ver os filhos maduros musical e artisticamente?
César - Evidentemente que tem um lado que é superlegal, o do orgulho. Imagino que um médico também tenha esse mesmo orgulho. Mas, por outro lado, a coisa rolou tão naturalmente, desde que eles eram pequenininhos, eles vivendo nesse ambiente... A nossa casa não era uma casa comum, de família, era ambiente de trabalho, local de ensaio, de criação, 24 horas por dia. As crianças sempre estavam ali metidas. É aquela história, se você vai racionalizar isso, fica “Ah, que coisa!”, mas, no cotidiano, você tá vendo ele lá: “Pai, como é que é aquela música?”, e você tocando piano, e ele canta aqui do lado, ela canta aqui do outro, já grava, já pensa. Essa criação, esse movimento que ocorre da profissão e da criação natural da música acontecia isso, sempre aconteceu. Então, por tudo que aconteceu, talvez eu ficasse espantado se eles não seguissem a profissão. Não ia ficar nem um pouco aborrecido com isso, muito pelo contrário. Mas foi uma coisa natural, e é muito legal, principalmente quando a gente trabalha junto. É uma coisa altamente profissional, mas tem uma hora que você olha assim pro Marcelo e vê ele pequeninho, você vê o Pedro cantando e lembra dele andando de fralda pela casa, cantando, tem isso, evidentemente que tem. E é bom isso, dá uma empurrada e dá uma união bem legal na família.
SERVIÇO
CÉSAR CAMARGO MARIANO NO FESTIVAL DE JAZZ & BLUES
Hoje, show no Theatro José de Alencar, a partir das 21 horas. Ingressos: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia). Outras informações:
3101 2583
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